terça-feira, 8 de março de 2022

VIAGEM PELA AMÉRICA DO SUL EM 1967 - 3ª PARTE - A SOFRIDA VIAGEM DE LA PAZ A TIAHUANACO, ESPLÊNDIDO “FORJADOR DE CIVILIZACIONES” por Francisco Souto Neto.

 

Francisco Souto Neto com seu gorro amarelo nas ruínas de Tiahuanaco.

 

Comendador Francisco Souto Neto

 

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VIAGEM PELA AMÉRICA DO SUL EM 1967

3ª PARTE

A SOFRIDA VIAGEM DE LA PAZ A TIAHUANACO,

ESPLÊNDIDO “FORJADOR DE CIVILIZACIONES”

 

por  Francisco Souto Neto

 

Esta é uma transcrição do meu diário da viagem que fiz a vários países da América do Sul em 1967, iniciada na semana em que completei 24 anos de idade. Passados 55 anos, é interessante observar os detalhes de como eram feitas as viagens naquele tempo e as impressões que os lugares causaram a este então jovem viajante. A transcrição do meu diário de viagem vai entre aspas, e quando eu achar necessário intervir no texto, farei isto entre colchetes.

 

 A SOFRIDA VIAGEM EM ÔNIBUS DE LA PAZ A TIAHUANACO

 

“Dia 18 de setembro de 1967 foi meu pior dia, devido ao ‘soroche’ e paradoxalmente o mais interessante dos que passei na Bolívia. Neste dia nada parou no meu estômago. Porém bem cedo levantei-me e fui ao local de onde sairia o ônibus rumo a... Tiahuanaco, ‘Forjador de Civilizações’. Era este o meu interesse número um em território boliviano.

Chegando ao local, descobri que se tratava de um micro-ônibus e, como não bastasse, nas poltronas para duas pessoas sentavam-se três... e gente em pé até não mais caber nem sequer uma mosca! Eu, felizmente, fui sentado. Entre dois nativos, mas sentado. Eu era o único turista naquela viagem que duraria cerca de duas horas. E lá fui, rumo ao Altiplano andino, em estrada construída a uma altitude superior a 4.000 metros.

No início da viagem, fotografo La Paz da janela do ônibus.

Viagem longa e cansativa, paisagem monótona. A única localidade por onde o ônibus passou, chama-se Laja. É uma simples aldeia, mas da janela do ônibus vi e fotografei sua catedral, de uma imponência e beleza que me espantou.

A catedral de Laja no meio do deserto do Altiplano.

Até que de repente, um dos índios que me cercavam apontou o indicador da mão calejada para uma leve dobra do terreno e disse com o respeito de quem indicaria uma divindade: “Tiwanaku!”. Busquei com os olhos e vi na distância enormes blocos de pedras, colunas, portas que se abrem para nenhuma parte.

Bem ao fundo, surgiu uma aldeia com ruas torcidas, de paredes empenadas de pedra e barro, ostentando chifres de animais e cruzes nos tetos que me pareceram de sapé. Descemos eu e alguns índios, e o ônibus continuou sua viagem para outras aldeias.

Nada naquele lugar faria supor que naquele mesmo local existiu uma das mais interessantes e misteriosas metrópoles da América Arcaica. Apenas ruínas restam dos templos, muralhas, cemitérios daquela que, há 10.000 anos, era a mais importante e a mais populosa cidade das Américas.

Alguns arqueólogos citam Tiahuanaco como o berço do homem americano, e outros acham possível que se trate do berço da Humanidade, e que dalí, e não da África, teria saído o homem que povoou as Américas e depois, passando pelo Estreito de Bering (Estados Unidos – Rússia), teria alcançado a Ásia e a África.

Quando os espanhóis chegaram a Tiahuanaco e perguntaram aos índios se aquela cidade havia sido fundada pelos Incas, eles riram-se da pergunta e responderam que muito antes da chegada dos Incas, e antes que o deus Viracocha tivesse criado a terra e as estrelas, Tiahuanaco já existia.

Eu estava informado de que quando chegasse a Tiahuanaco, deveria procurar pelo Padre Jaime na Igreja de São Pedro, que ele abriria a porta do templo para eu apreciar as pinturas do ano 1.600 e que, se eu precisasse, ele me daria respaldo e orientação. Fui diretamente à referida igreja e bati à porta. O índio que me atendeu, muito bem educado, disse-me que o padre acabava de deitar-se para fazer a ‘siesta’, e que eu voltasse quando ele já tivesse acordado e lanchado. ‘Em quanto tempo?’, perguntei. E o índio: ‘Algumas três horas ou três e meia’. Agradeci e fui embora, porque não tinha tempo a perder. Além disso, sofrendo de ‘soroche’, eu não sentiria disposição para conversar com o padre.

Um nativo me observava e aproximou-se. Pelo que me foi dizendo, e pelo seu aspecto e maneira como se expressava, achei-o confiável. Disse-me que era um guia, falava razoavelmente o idioma espanhol e era um aimará, que descende dos kollas. Era uma figura que impunha uma sensação de dignidade e honestidade. Combinamos o preço e ele me conduziu às ruínas. Tirei várias fotos dele. Mas ele não sabia fotografar. Orientei-o muito bem e até que fez algumas boas fotos, embora muito de longe.

O mais importante monumento de Tiahuanaco é a Porta do Sol, talhada num bloco maciço de andesita, com três metros de altura por quatro de largura. Sua abertura central mede pouco mais de metro e meio. O ângulo direito do monólito tem uma rachadura que alguns autores dizem ter sido provocada pelos espanhóis. A Srª Emma Castellón, ainda no Brasil, disse-me ter sido causada por um raio. O monólito impressiona pelas harmoniosas formas geométricas, mas a frisa que corre por toda a sua extensão acima da abertura, é – no dizer de vários autores – alucinante. Ao centro da frisa está a figura do deus supremo, criador da Terra e das estrelas: Viracocha el Divino ou, simplesmente, o Sol.


O primeiro monumento que visito é a Porta do Sol, com cerca de 10.000 anos, um monólito esculpido pelos pré-incaicos Kollas.

O índio, que fotografei na escada, será o guia que me mostrará Tiahuanaco. Ele é aimára, descendente dos Kollas. Bem ao fundo, a escultura monolítica de um deus.

A Porta do Sol vista de frente. Ao centro, a figura do criador da Terra e das estrelas: o deus Viracocha ou, simplesmente, o Sol.

Eu, usando meu longo gorro, de costas para a Porta do Sol.

Uma das praças.

O índio e o cemitério tiahuanacota.

Eu, com meu gorro amarelo, em uma das portas, doente de “soroche”.

Fotografo o índio de modo a quase confundi-lo com a escultura.

O Senado.

Ao meu lado, uma das mais famosas esculturas tiahuanacotas: o Monólito Ponce Estela 8.

Fotografo o índio sentado e as pedras atrás, que dão uma sensação de eternidade.

Deixando as ruínas, fotografo pela última vez a Porta do Sol ao longe.

Voltando à aldeia, vejo um pequeno lago e uma totora.

Entre a aldeia e a ferrovia, há um conjunto de ruínas: Puma-Puncu (a Porta dos Leões), o o Tunca-Puncu (Porta dos Dez) e o Umu-Puncu (Porta da Água). E inúmeros outros monumentos em antigas praças, que fotografei.

Desconhece-se o que determinou o fim de Tiahuanaco. Alguns autores acreditam que possa ter havido a ruptura de um dique natural, isto é, de um dos lagos suspensos da Cordilheira, que teria lançado suas águas no Lago Titicaca, e então uma súbita enchente teria submergido Tiahuanaco com seus habitantes e artistas. Mas são suposições, porque a verdadeira história dessa metgrópole pré-histórica é desconhecida.

Devido ao soroche, eu só desejava voltar a La Paz e deitar-me”.

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 [Foi então que ocorreram dois episódios que são quase inacreditáveis. Um deles foi o que chamei de “os cães mendigos” e o outro “surreal embarque para retornar em micro-ônibus a La Paz”, algo que quase não acredito que tenha vivido... e sobrevivido, o que relatarei na PARTE 4 desta narrativa].

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P.S.: ALGUMAS OBSERVAÇÕES EM  8.3.2022.


Logo após retornar da viagem, fiz uma escultura em madeira inspirada no Monólito Ponce Estela 8, de Tiahuanaco.

Meu saudoso amigo Joãozinho Vargas, que assinava uma coluna social no Jornal da Manhã, viu a escultura e me pediu para fotografá-la e divulgá-la. E assim fez.

Detalhes do artigo do Joãozinho sobre a minha escultura.

Em 2022 tiro uma fotografia com a escultura que fiz há mais de meio século e que tem me acompanhado por toda a vida. Acima, no meu apartamento de Curitiba.

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domingo, 6 de março de 2022

VIAGEM PELA AMÉRICA DO SUL EM 1967 - 2ª PARTE - A CHEGADA A LA PAZ e O MAL DA MONTANHA (“EL SOROCHE”), por Francisco Souto Neto.


Francisco Souto Neto ao lado de uma triste lembrança do país: o poste onde foi pendurado o presidente da República, assassinado em 21 de julho de 1946.

 

Comendador Francisco Souto Neto

 

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VIAGEM PELA AMÉRICA DO SUL EM 1967

2ª PARTE

A CHEGADA A LA PAZ e O MAL DA MONTANHA (“EL SOROCHE”)

por  Francisco Souto Neto

 

Esta é uma transcrição do meu diário da viagem que fiz a vários países da América do Sul em 1967, iniciada na semana em que completei 24 anos de idade. Passados 55 anos, é interessante observar os detalhes de como eram feitas as viagens naquele tempo e as impressões que os lugares causaram a este então jovem viajante. A transcrição do meu diário de viagem vai entre aspas, e quando eu achar necessário intervir no texto, farei isto entre colchetes.

 PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE LA PAZ NO ANO 1967

“O avião do Lloyd Aéreo Boliviano tocou o solo de La Paz às 16:30 horas, após uma viagem desagradável devido aos ‘solavancos’ do DC-6B, que na última meia hora foram violentos e só suportáveis devido à beleza do panorama. Quando abriram a porta, o avião foi invadido pelo frio. A aeromoça colocou u’a manta sobre os ombros e nós, passageiros, vestimos nossos agasalhos. O meu sobretudo, que eu trazia no braço, não foi suficiente para que eu não tiritasse. Uma bela moça atirou a cabeça para trás e exclamou com alívio: ‘Ah, el aire!’. É que o aeroporto está situado a 4.000 metros de altitude e por isso a pista tem muitos quilômetros de extensão, para que o avião possa levantar-se em ar tão rarefeito. Tomei um ônibus por gentileza do Lloyd Aéreo Boliviano que me conduziu à cidade. Eu observava que eram pobres os indícios de que estivéssemos próximos a uma grande cidade e o solo era pouco fértil, quase desértico. Às vezes passava uma tropa de burros à beira da estrada, guiadas por índios que andavam lentamente. Eles trazem na cabeça uns bonés bicudos, os ‘lluchos’, e cobrem-se com ponchos curtos. De repente surgiu sobre a estrada um grande portão em arco, com propaganda da Coca Cola, dizendo: BIENVENIDO A LA PAZ. Mas onde estaria a capital, que eu não a via? Ao transpor o arco, a cidade, enorme, literalmente explode no fundo de uma gigantesca cratera 860 metros abaixo. Eu me senti entrar em outro mundo. A estrada é de cimento, cheia de curvas e as casas têm os telhados de zinco. Além da cratera, no horizonte distante, vê-se o Illimani, com quase 7.000 metros de altitude, coberto de neves eternas, com reflexos cintilantes, róseos, de beleza rara. É o guardião de La Paz, uma das mais belas montanhas do mundo. A mim parece uma montanha de cristal. Sendo recoberto de neve e gelo, muitas vezes  torna o frio mais intenso na capital, mas por outro lado ele serve como um anteparo natural aos furiosos ventos que varrem a Cordilheira dos Andes.

A descida de El Alto até ao centro de La Paz dura mais de meia hora. Passei a notar que as mulheres têm os traços indígenas de seus ancestrais aimaras, são gordas, usam várias saias ao mesmo tempo, que são coloridas e rodadas, e no alto da cabeça ostentam invariavelmente um chapéu coco, de onde escorre uma trança fina e comprida. São chamadas ‘cholas’, e são elas que mandam na família e dominam o comércio. Parece-me que os maridos dedicam-se à política, mas via de regra seguem o político da preferência da sua chola.

O ônibus do Lloyd Aéreo Boliviano deixou-me num ponto qualquer de La Paz, onde tomei um táxi e pedi ao chofer que me levasse ao Hotel Avenida, onde eu teria uma reserva. Espantei-me com os táxis, luxuosos e enormes: são carros Impalla, Mercedes, Mustang, Galaxie, Fairlaine... todos eles ‘último tipo’. É uma loucura que os táxis em La Paz sejam tão chiques. Parece-me que se o carro é comprado para ser táxi durante pelo menos um ano, não paga os impostos. E assim, todo ano o taxista compra um novo e fabuloso automóvel.

Cheguei ao Hotel Avenida, muito bem localizado, mas... não haviam recebido a minha solicitação de reserva, que eu expedira em carta registrada há mais de 10 dias. Contudo havia acomodação disponível, de modo que não tive problema. Era um hotel considerado econômico, porém o meu apartamento era amplo, com bom banheiro e com um aparelho mais moderno que o telefone, pelo qual eu poderia comunicar-me com a portaria [sic]. Tomei um delicioso banho e jantei num restaurante japonês. Em seguida peguei um táxi e rumei para a casa de Bernardo, irmão do Sr. Renán Castellón, que reside em Ponta Grossa. Eu levava um rolo de fita magnética a Bernardo, pois esta é a correspondência originalíssima usada pelos Castellón. Chegando ao endereço correto, gostei muito de conhecer Bernardo, sua mãe e irmã, pessoas muito finas e simpáticas. Porém, durante a visita, notei que eu não estava me sentindo bem, e me parece que não tinha vontade de conversar. Eu olhava para o chão... e o via tremer. Quando andava, era como se estivesse pisando sobre uma camada de borracha. Pensei que aquilo poderia ser ainda reminiscência do enjoo na viagem aérea, ou talvez eu estivesse mesmo cansado. Só no dia seguinte eu perceberia estar sofrendo do ‘mal da montanha’... ou ‘soroche’. Mais adiante explicarei com detalhes.

Resolvi retornar ao meu hotel. Tomei um táxi. Em La Paz [em 1967] o táxi vai pegando mais passageiros pelo caminho, desde que queiram ir para um mesmo lado da cidade. O motorista os deixa em seus destinos, conforme a conveniência do trajeto. Estranho costume! Quando contei ao motorista que no Brasil um só passageiro tem o direito a exclusividade no táxi, ele repetiu incrédulo: ‘Pero... solo uno?’. E perguntou-me onde eu havia aprendido a falar ‘tão bem’ o espanhol. A propósito, perguntas idênticas ouvi em todos os países por onde passei. Creio que devo isso às aulas que tive com o Prof. Paschoal Salles Rosa, à minha leitura habitual da Life em Español e ao meu próprio interesse no idioma.

Jantei qualquer coisa no hotel. Continuava sentindo-me miseravelmente, muito indisposto. Dormi mal e tive horríveis pesadelos.

Na manhã seguinte a temperatura em meu apartamento estava a 11 graus. Embora continuasse indisposto, forcei-me a sair para ver a cidade. Fui à Igreja de São Francisco, que me deixou muito bem impressionado, com o altar coberto de ouro. Numa rua próxima, ocorria uma pitoresca procissão de cholas na qual entrava muito confete. Elas carregam às costas suas compras ou os filhos.


Eu em frente à Catedral.

A Igreja de São Francisco.

À porta da Catedral.

Eu em frente ao Palácio do Governo.

Procissão de cholas.

A cidade é limpa. Cheia de ladeiras, só é plana na estreita região do Rio Choqueyapú. Visitei rapidamente a Universidade e os Palácios da Justiça e do Congresso. Em frente a eles há uma praça e eu sabia que num dos postes foi pendurado o presidente assassinado na revolução de 1946. Há inscrições na base do poste, tais como ‘No soy enemigo de los ricos, pero soy mas amigo de los pobres’, ‘Sacrificado por la oligarquia’, ‘El 21 de julio de 1946 no fué em vano’, ‘El capitán no abandona su barco en la tormenta’.


Francisco Souto Neto ao lado do poste onde foi pendurado o presidente da República assassinado. Placas de bronze fixadas na base do poste fazem alusão aos tristes acontecimento de 1946.

O povo boliviano é extremamente atencioso. Quando eu pedia uma informação na rua, eles pegavam-me pelo braço e levavam-me aos locais onde eu desejava chegar. E sempre que pedi para alguém fotografar-me com minha câmera, sempre fui atendido com grande simpatia.

Francisco Souto Neto entre La Merced e o Mercado de Flores.

Francisco Souto Neto em frente a um museu que visitou.

Eu continuava sentindo-me terrivelmente mal. Entrei num restaurante, mas saí precipidamente porque o cheiro de comida me provocava náuseas. Ainda assim, fui ao Mercado Camacho, originalíssimo: as cholas colocam sua mercadoria – frutas, legumes, carnes, peixes – sobre enormes caixas e sentam-se sobre suas próprias pernas no meio daquelas coisas. ‘Si no lo tomas, no lo toques’, repetem zangadas e peremptórias.

No Mercado Camacho, as cholas ficam no meio da mercadoria exposta, de onde alcançam tudo para entregar ao eventual comprador.

As cholas não gostam de ser fotografadas. Ao verem uma máquina fotográfica, dão as costas.

Agora bastava eu andar um pouco para me sentir mal. Eu já havia percebido, pelo que lera ainda quando no Brasil: minhas inexplicáveis indisposições ocorriam porque eu estava doente, assim como quase a totalidade dos turistas que chegam a La Paz: eu devia estar sofrendo do ‘mal das alturas’ (ou ‘mal da montanha’), isto é, ‘el soroche’. Eis a explicação: La Paz é a mais alta capital do mundo, superior a Lhassa no Tibet. O turista não habituado à altura sofre os efeitos: imensa sensação de fadiga, invencível e intensa a ponto de fazer a pessoa perder o interesse pelo ambiente e quase a ação sobre o corpo. Além do enjoo, eu tinha a sensação de completo relaxamento e de braços e pernas abandonados, embora o cérebro continuasse em normal atividade. O pior eram as náuseas. Já eram 17:00 horas e eu não suportava imaginar-me comendo algo. Resolvi acatar a sugestão da portaria do hotel: comprar folhas de coca para tomar chá da planta. Pensei em sair em busca do vegetal, mas fiquei antes repousando um pouco na minha cama, quando tocou o telefone. Era Bernardo Castellón, combinando para levar-me em seu carro à casa do casal Mabel Rivera e Mário Castro. Ela é declamadora profissional e ele, diretor de uma rádio. Eu levava mensagens a eles, do casal Renán Castellón de Ponta Grossa, através de fita magnética de gravador. Bernardo foi buscar-me no hotel e fomos à casa dos Castro. Achei o casal muitíssimo simpático. Eles são refinados e cultos. Mas ficamos menos de meia hora e Bernardo, sabendo de meu estado, levou-me de volta ao hotel. Bernardo é estudante de Medicina, já no penúltimo ano, e medicou-me. Tomei os remédios com avidez e fui me deitar. Eram apenas 19 horas e eu continuava enjoado. E assim, vestido, adormeci e tive outra noite com pesadelos.

O dia seguinte, 18, foi o meu pior dia e, paradoxalmente, o mais bonito durante minha estada na Bolívia. É que fui visitar as ruínas de Tiahuanaco, onde viveram os kollas 8.000 anos antes de Cristo”.

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Aqui interrompo a transcrição do meu diário da viagem de 1967 e prosseguirei na 3ª PARTE deste blog. Além de relatar a minha incrível visita a Tiahuanaco, contarei como consegui vencer o “mal da montanha”. E ainda fiz mais passeios por La Paz, agora a convite de Bernardo Castellón.

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Francisco Souto Neto aos 78 anos, durante a pandemia do coronavírus, em Curitiba, 55 anos após ter escrito os textos que estão sendo transcritos neste blog.

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sábado, 5 de março de 2022

VIAGEM PELA AMÉRICA DO SUL EM 1967 - 1ª PARTE - OS VÔOS DE CAMPO GRANDE A LA PAZ por Francisco Souto Neto.

 

Francisco Souto Neto em 1967, viajando através de sete países sul-americanos.

 

Comendador Francisco Souto Neto

 

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VIAGEM PELA AMÉRICA DO SUL EM 1967

1ª PARTE

OS VÔOS DE CAMPO GRANDE A LA PAZ

por  Francisco Souto Neto

 

1ª página da carta descritiva da viagem, datilografada e mimeografada por Francisco Souto Neto para seu irmão Olímpio e esposa. As folhas de tamanho "ofício" eram enormes, e a mão serve para que se possa comparar e perceber as grandes dimensões da página.


Durante anos esteve perdido o meu diário da viagem que realizei pela América do Sul em 1967. Meu acervo de papéis é muito grande e ontem, mexendo no conteúdo de velhas caixas que já estavam fechadas quando da minha última mudança de domicílio, tive a surpresa de encontrar tais memórias “passadas a limpo”, isto é, datilografadas e mimeografadas – o mimeógrafo era, há mais de meio século, o meio de reprodução de textos, quando o xerox ainda não existia. O mimeógrafo é hoje um sistema obsoleto e naquela época considerado perigoso devido às doenças decorrentes do uso, além de apresentar baixa qualidade na cópia e lentidão no serviço.

São dezenas de páginas em tamanho ofício (o papel é bem mais longo que o atual padrão conhecido como A4) que datilografei na antiga ortografia.

A viagem abrangeu Bolívia, Peru, Chile, Argentina e Uruguai. Mas neste artigo de hoje vou referir-me exclusivamente as etapas da viagem de Campo Grande até La Paz, feita em dois dias a bordo dos antigos aviões comerciais com hélices.

Minha mãe acompanhou-me até a Campo Grande, sua cidade natal, onde ficou hospedada pelo seu irmão Cláudio enquanto segui viagem.

Do próximo parágrafo em diante, farei uma transcrição direta das minhas palavras escritas naquela época. Passados 55 anos, é interessante observar os detalhes de como eram feitas as viagens e as impressões que os lugares causaram a este então jovem viajante. A transcrição do meu diário de viagem vai entre aspas, e quando eu achar necessário intervir no texto, farei isto entre colchetes.

 

O VOO ENTRE CAMPO GRANDE E CORUMBÁ EM 1967


Francisco Souto Neto e sua mãe no aeroporto de Campo Grande, esperando pelo avião que o levaria à Bolívia.

“No dia 15 [de setembro de 1967], às 10,30 horas, um táxi da Cruzeiro do Sul me apanhou na casa de minha avó Mãe Izolina, levando-me para o aeroporto. Lá chegando, fui almoçar por gentileza da empresa aérea Cruzeiro do Sul. Almoço simples, mas o peixe ensopado estava delicioso. Logo depois chegaram minha mãe e minha tia Nêmesis. Tiramos algumas fotografias de lembrança e fui convidado para o embarque. Mamãe e minha tia acompanharam-me até à escadinha na porta do avião [o que naquele tempo era normal]. Escolhi uma poltrona na parte mais de trás [pois os lugares não eram marcados previamente] e apertei o cinto. Os dois motores a hélices puseram-se a funcionar e o avião arrastou-se lentamente ao final da pista. Era um humilde DC-3 com capacidade para 28 passageiros. Nesse voo, segundo expressão do aeromoço, éramos somente 12 ‘cabeças’. Através da janela tentei localizar minha mãe e Nêmesis, em vão. Os motores passaram a roncar bem forte, o avião deu uma corridinha na pista e ergueu-se no ar aos corcovos.

O avião sobrevoa Campo Grande rumo a Corumbá e Santa Cruz de la Sierra.

Começava a minha fascinante viagem. Passando sobre Campo Grande, eu voava para ‘tierras estrañas’, de encontro às civilizações pré-colombianas!

O avião faria uma escala em Corumbá. Até Santa Cruz de la Sierra, seu ponto final, seriam 960 quilômetros de voo, o equivalente a um de Ponta Grossa a Brasília. Os primeiros minutos da viagem foram verdadeiramente insuportáveis. Nós, as doze ‘cabeças’, estávamos silenciosos, sentindo os solavancos e as caídas que quase punham nossos estômagos boca afora. Finalmente o avião estabilizou e o aeromoço surgiu oferecendo balas e suco de uva. Da janelinha quadrada do DC-3 fotografei as selvas sem fim do pantanal de Mato Grosso, cheias de lagoas redondas. Avistei o Rio Paraguai com suas curvas sinuosas. À uma da tarde o avião aterrissou em Corumbá, após sobrevoá-la. Notei que as casas têm antenas de televisão: elas recebem imagens de Campo Grande, onde já existe uma emissora. Corumbá é, em importância, a segunda cidade do Estado de Mato Grosso [Mato Grosso Uno]. Cuiabá, a capital, vem em terceiro lugar.

Desci meio tonto em Corumbá, sob efeito do Dramin, e fui em direção à alfândega. O calor estava insuportável. Simplesmente abri a mala e eles nem tocaram em meus pertences. Como passageiro internacional, passei pela polícia e paguei uma taxa de NCr$2,00 pelo visto de saída do Brasil.

 

O VOO DE CORUMBÁ A SANTA CRUZ DE LA SIERRA

 

Às 13:45 horas, sufocado de calor, voltei ao avião. Ao sentar-me, liguei o jato de ar fresco sobre meu rosto. Apertei o cinto, o avião foi ao final da pista, deu outra corridinha... e mais uma vez o sofrimento, agora de longa duração: por mais de uma hora, o voo assemelhava-se a uma carroça correndo a toda velocidade em estrada esburacada. O ‘sofrimento’ era, evidentemente, o enjôo. O Dramin parecia não surtir efeito e agarrei o ‘saquinho das indisposições’ que, por sorte, era de plástico e não de papelão, como usava-se até recentemente, mas não precisei utilizá-lo porque o voo estabilizou. Só então percebi que há muito já voava sobre território boliviano. A visão do solo era monótona, muito reduzida pela fumaça das queimadas e também pelo vidro da janela, cheio de riscos e trincas.

O aeromoço serviu suco de uvas e seis bolachas salgadas... e foi tudo até chegarmos ao destino. A Cruzeiro do Sul já operava com jatos em vários pontos do Brasil e um deles era o maravilhoso Caravelle. Mas naquela região onde eu estava, voavam os DC-3 que não ofereciam comodidades. O toilette do avião era feio e desajeitado, a pia suja e o sabonete apenas um toco. Percebi que perdíamos altura. Voltei ao meu assento, apertei o cinto e logo aterrissávamos em Santa Cruz de la Sierra.

 

A CIDADE DE SANTA CRUZ DE LA SIERRA EM 1967 

 

Desci meio tonto e rumei à alfândega, onde precisei preencher extensos formulários. Só abri e fechei a mala, sem que nela mexessem. O aeroporto era péssimo. Tomei um táxi e rumei para a cidade. Ali todos os táxis são [em 1967] Jeeps Toyotas abertos. As ruas estreitas são de terra, sem calçamento, por isso circula-se em meio a nuvens de poeira. Às vezes há água empoçada, formando piscinas de lama entre os dois passeios. Nota-se pobreza nas ruas e o ar desolado da cidade. Toda baixa, os prédios vão até à rua cobrindo as calçadas em arcos que guardam o mais puro estilo espanhol. Sobre os antiquíssimos telhados crescem cactos, cujas sementes são trazidas pelo vento, que dão flores vermelhas e atingem até por volta de um metro de altura. 

Cactus que nascem nos telhados das casas.

Santa Cruz de la Sierra, a terceira cidade boliviana com população de 83.000 habitantes em 1967.

Plaza de Armas com catedral ao fundo.


Meu hotel estava na Calle René Moreno, distante um quarteirão da Plaza de Armas, de arquitetura bem espanhola, de entrada característica e com um encantador pátio interno com redes, árvores em flor, pássaros coloridos em viveiros, que fazem carícias nas mãos dos hóspedes, e um poético poço vermelho.



Francisco Souto Neto no pátio interno do seu hotel.

Viveiro de pássaros no hotel de Santa Cruz de la Sierra.

Fui conhecer Santa Cruz, passando pelo Lloyd Aéreo Boliviano para confirmar minha passagem no dia seguinte com destino a La Paz. A Catedral é bonita e deve ser várias vezes centenária. Na Plaza de Armas as árvores são habitadas por uns macacos pesadões. Nas lojas as mercadorias expostas são todas importadas porque [em 1967] na Bolívia não há máquinas. Por exemplo, geladeiras francesas, Lambrettas italianas, fogões argentinos, máquinas de costura japonesas, tratores americanos, automóveis ingleses. Comprei um produto americano: Pall Mall!

Fiz amizade com duas garotas de La Paz, chamadas Martha e Cármen, que estavam no meu hotel. Encontravam-se, como eu, em trânsito, e no dia seguinte seguiriam para o Rio, na companhia de uma cunhada.

Francisco Souto Neto com Martha e Cármen, garotas bolivianas.

Dormi muito bem e no dia seguinte, após vários passeios com as garotas de La Paz, aguardei pelo Jeep (táxi) que me levaria ao aeroporto de La Paz. Ao meio-dia o calor era de 26° na sombra com vento. Ao sol, inacreditáveis 40°.

 

O VOO DE SANTA CRUZ DE LA SIERRA A LA PAZ

 

No aeroporto encontrei-me com outra amiga, também de La Paz, que seguia com os pais para São Paulo. Tomei 7UP ouvindo ‘La enamoradita de un amigo mío’. Vi o avião que me levaria a La Paz com escala em Cochabamba: era um grande DC-6B do Lloyd Aéreo Boliviano com 4 hélices, azul, que voaria a 4.200 metros (o DC-3 voava a apenas 2.700 metros). Às duas da tarde, embarquei. A porta situava-se na metade do avião. Busquei uma poltrona mais ao fundo, para que a asa não atrapalhasse a visão do panorama. Muito grande, o avião era todo acarpetado e com as poltronas estofadas em vermelho. Reconheci um casal americano que voara comigo desde Campo Grande. Atenção: vocês ouvirão falar deles em outras etapas da viagem. O ambiente era refinado, as pessoas falavam em inglês e espanhol, o calor era SUFOCANTE e eu tinha terra na boca. Da janela do avião vi formar-se um rodamoinho de poeira com uns 30 metros de altura, assustador.

Prestes a embarcar num quadrimotor DC-6B com rumo a La Paz. Naquele tempo, viajava-se sempre vestindo terno e gravata.

O avião foi ao final da pista e numa corrida galgou o céu. Após 15 minutos de voo eu via apenas leitos secos de rios e selvas amarelecidas de poeira. Repentinamente os motores passaram a roncar mais alto; percebi que começávamos a transpor os contrafortes da Cordilheira dos Andes. Uma das aeromoças serviu-me balas azedinhas. A Cordinheira começa humilde, mas de repente já voávamos sobre formações impressionantes; montanhas marrons com estranhas rugosidades que não pareciam reais, mas desenhadas.

O avião passa sobre o lugarejo de Quillacollo, que era assim em 1967.

Passamos sobre uma única cidade chamada Quillacollo, que parecia um pequeno desenho com linhas paralelas, perpendiculares e transversais. Às 15:10 horas escalamos em Cochabamba, a segunda cidade mais populosa da Bolívia, pouco mais populosa que Ponta Grossa. O aeroporto estava cheio de gente! Lá fiquei durante 45 minutos, quando convidaram para o reembarque.

 
Nas escalas, os passageiros todos tinham que desembarcar. Aqui, na escala em Cochabamba, sou fotografado com duas senhoras que viajavam com o filho de uma delas.

Eu já me sentia melhor, pois Cochabamba está situada a 2.557 metros de altitude, enquanto Santa Cruz a apenas 640 metros. 

Decolando rumo a La Paz, o avião passa sobre Cochabamba.

Atravesso algodões de nuvens.

De repente o céu se abre e descortino a Cordilheira dos Andes rumo a La Paz.

Não fazia calor. Rumando a La Paz, o avião passou a jogar muito. Tudo o que ofereceram neste percurso, foi chicletes e Pepsi Cola choca. De repente, ao longe, surgiram picos cobertos por neves eternas: era a Cordilheira dos Andes propriamente dita. Sua beleza, vista do alto, é indescritível.

O avião prestes a aterrissar em El Alto, bairro de La Paz. No horizonte, a montanha Illimani, próxima da capital boliviana.

Naquele tempo já remoto, 1967, a simples viagem de avião já podia ser considerada uma grande aventura.

Aterrissamos em El Alto, bairro de La Paz. Acontecimentos fascinantes esperavam-me no belo país”.

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Transcrito de meu diário de viagem, destinado sob forma de carta para meu irmão  Olímpio, que residia em Nova York com sua esposa Aparecida, com cópias para minha avó paterna Mãe Nina e filhos, para minha avó materna Mãe Izolina e filhos, e para as famílias Batista Rosas, Lange, Maia, Armellini, Vargas de Oliveira, Carvalho e mais uns poucos amigos.

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Francisco Souto Neto durante a pandemia do coronavírus, em Curitiba, 55 anos após ter escrito os textos que estão sendo transcritos neste blog.

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