domingo, 12 de julho de 2026

ENTRE O DESCASO PÚBLICO E A CIDADANIA ATIVA: A RELEVÂNCIA DA ACGB NA PRESERVAÇÃO DE CURITIBA por Francisco Souto Neto.


ENTRE O DESCASO PÚBLICO E A CIDADANIA ATIVA: A RELEVÂNCIA DA ACGB NA PRESERVAÇÃO DE CURITIBA 

por Francisco Souto Neto.


Calceteiros da ACGB restaurando as calçadas de Curitiba. Foto por Francisco Souto Neto.

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Francisco Souto Neto em 2025.


Calceteiros da ACGB restaurando as calçadas de Curitiba. Foto por Francisco Souto Neto.


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As calçadas de Curitiba, pavimentadas com a tradicional técnica do petit pavé — ou mosaico português —, encantam pela estética em seus primórdios. Contudo, o inevitável passar dos anos impõe-lhes uma severa deterioração: a pressão das raízes arbóreas deforma a superfície, enquanto a perda contínua das pedras calcárias origina buracos que se convertem em autênticas armadilhas para os pedestres. O aspecto mais alarmante desse cenário é a aparente inércia do Poder Executivo Municipal frente ao problema. Paralelamente, a própria população parece ter se habituado a essa topografia urbana acidentada; encarando a degradação das calçadas como um fenômeno natural, os cidadãos abstêm-se de reivindicar melhorias e parecem desconhecer o padrão de conservação de grandes metrópoles europeias.

Em contraposição a essa passividade, testemunhei uma louvável reação ao desalinho de nossas vias. Durante mais de quatro décadas, residi em um edifício situado na Rua Marechal Hermes, esquina com a Rua Mauá, precisamente na confluência entre o Centro Cívico e o Alto da Glória. A principal artéria desta região é a Avenida João Gualberto, via de expressivo dinamismo comercial e bancário. Naquela época, suas calçadas ostentavam uma periculosidade notória, sendo estatisticamente propensas a causar acidentes e fraturas nos transeuntes. 

Certo dia, ao me dirigir a uma panificadora na referida avenida, deparei-me com uma equipe empenhada na restauração do petit pavé (leia-se “petipavê”). Ao indagar os calceteiros se integravam o quadro de servidores municipais, surpreendi-me com a resposta: tratava-se de operários da Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil (ACGB). Esta entidade sem fins lucrativos, gerida pelo idealista e mecenas Luiz Fernando de Queiroz — diretor da Editora Bonijuris —, atua com o firme propósito de promover o bem-estar coletivo, de forma totalmente independente das esferas governamentais. Além do reparo técnico dos pavimentos, a associação desenvolve um relevante trabalho de revitalização visual, eliminando pichações em muros, residências e portas de aço comerciais, transformando inclusive fachadas de edifícios em verdadeiros murais poéticos. A ACGB faz tudo, absolutamente tudo, gratuitamente.

Impactado pela relevância do projeto, publiquei um artigo em meados da década passada detalhando a iniciativa, o qual permanece acessível através do seguinte endereço eletrônico:

 

https://fsoutone.blogspot.com/2017/04/acgb-vida-urbana-uma-bencao-sobre.html

 

Para que o leitor possa mensurar a magnitude desse trabalho filantrópico promovido por Luiz Fernando de Queiroz, apresento abaixo alguns registros comparativos de "antes e depois":

 

Calçada de Curitiba restaurada pelos funcionários da ACGB.

Pichações nas fachadas de duas casas que foram restauradas pela ACGB.

Eliminadas as pichações das portas.

Fachada do Centro de Letras do Paraná restaurada pela ACGB.

Muro restaurado com pintura e poesia.

 edifício estava inteiramente pichado e foi restaurado pela ACGB.

O decurso do tempo consolidou minha admiração pelo projeto da ACGB e propiciou o início de uma grata amizade com Luiz Fernando de Queiroz, com quem hoje compartilho a honra de pertencer à Academia de Letras José de Alencar. Em 2017, sua editora publicou o nono volume da obra "Vozes do Paraná", de autoria do saudoso jornalista Aroldo Murá, edição na qual tive o privilégio de ser um dos perfilados.

A imagem subsequente retrata Queiroz portando o referido volume, onde consta meu nome na capa entre os outros dos perfilados na obra. Originalmente prejudicada por um leve desfoque, a fotografia foi submetida a um processo de restauração por IA (inteligência artificial), resultando na nitidez agora apresentada:

 

O mecenas Luiz Fernando de Queiroz com o volume nove de Vozes do Paraná, da sua editora Bonijuris.

 

Transpondo-nos agora para o corrente ano de 2026, a história ganha um novo capítulo.

 

No mês pretérito, ao deixar as dependências do meu atual endereço — situado no limite entre o Centro e o Batel —, observei novamente os calceteiros da ACGB em plena atividade, corrigindo minuciosamente as imperfeições do pavimento. Foi motivo de profunda satisfação constatar que a equipe de Queiroz permanece ativa e resoluta, suprindo de forma graciosa as lacunas deixadas pela omissão da municipalidade e de relapsos proprietários.

Naquela mesma oportunidade, encontrei na portaria do edifício o síndico Valmor Viecinski. Conhecido por seu perfil altruísta e empático, Viecinski já havia oferecido, por iniciativa própria e recursos particulares, o custeio do almoço dos trabalhadores — gesto realizado antes mesmo que eu o contextualizasse sobre a história e o impacto social da ACGB.

Reuni os calceteiros no próprio local de trabalho para registrar o momento. As fotografias capturadas por mim não apenas foram enviadas a Luiz Fernando de Queiroz como homenagem, mas também ilustram este artigo, servindo como testemunho público de que a ACGB mantém-se firme em sua missão de mecenato urbano em prol de nossa Curitiba.

 

Calceteiros da ACGB concluindo seu trabalho de restaurar as calçadas de Curitiba. Foto de Francisco Souto Neto.

Dona Vera, à direita, da recepção do meu condomínio, gentilmente cedeu-me seu celular para que eu pudesse fazer este registro dos calceteiros da ACGB... Foto de Francisco Souto Neto.


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domingo, 21 de junho de 2026

JULIE LONDON – A CANTORA E ATRIZ ESTADUNIDENSE CUJA VOZ ME ACOMPANHA HÁ QUASE 70 ANOS - por Francisco Souto Neto em 20.6.2026.

JULIE LONDON – A CANTORA E ATRIZ ESTADUNIDENSE CUJA VOZ ME ACOMPANHA HÁ QUASE 70 ANOS      -       por Francisco Souto Neto em 19.6.2026.


A cantora e atriz Julie London (capa da revista LIFE) 


Francisco Souto Neto em 2025.


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O primeiro disco de Julie London que  conheci, “Julie is her name”, foi comprado pelo meu irmão Olímpio Souto em 1957.

 
FOTO 1 – “Julie is her name”, o primeiro long-play de Julie London em 1957.

FOTO 2 – A contracapa.

 

Anos depois, quando meu irmão mudou-se para Nova York, deu-me o  disco de presente porque sabia que eu gostava de Julie London mais do que ele. A música mais importante do disco era “Cry me a River”, que Julie apareceu cantando num filme em CinemaScope estrelado por Jayne Mansfield, “The Girl Can't Help It”, que no Brasil chamou-se “Sabes o que Quero”. Foi assistindo a esse filme que meu irmão e eu descobrimos Julie London.

Abaixo está a sequência do filme quando Tom Ewell, embriagado, despede-se de Jayne Mansfield e vai para casa, onde pega o disco “Julie is her name” e o coloca na vitrola... então começa a não apenas ouvir, mas, no seu delírio, também vê Julie London cantando em todos os lugares da residência. 

 

FOTO 3 – Sequência do filme “Sabes o que quero”, com Tom Ewell e Jayne Mansfield, em que Julie London aparece como ela mesma, cantando “Cry me a River”.

 

Abaixo, captada do YouTube, a sequência acima referida. Assista clicando abaixo:

 

https://www.youtube.com/watch?v=OAAq2O9bjKM&list=RDOAAq2O9bjKM&start_radio=1

 

No começo do ano de 1958, quando ingressei no 3º ano do Curso Ginasial da Academia, eu estava com 14 anos de idade, e fiz no meu caderno de desenho um retrato a lápis de Julie London. Meu professor de desenho teceu elogios, mas é claro que o retrato é muito ruim. Afinal, eu era ainda um menino. Mas está aqui neste relato apenas a título de curiosidade. Vale para atestar que eu era, realmente, um grande fã da cantora.

 

FOTO 4 – O retrato a lápis (obviamente mal feito) que fiz no meu caderno de desenho no 3º ano do Curso Ginasial, quando eu era um menino aos 14 anos no começo do ano letivo de 1958.

 

Aos 15 anos eu era tão fã de Julie London que fiz uma montagem fotográfica onde ela aparecia ao meu lado, da seguinte maneira: posei para uma fotografia segurando o tal disco, apontando para um espaço vazio ao meu lado onde, após revelada a fotografia, recortei de uma revista a foto da cantora e ali colei-a. Naquele tempo as fotografias eram em preto e branco. Agora, passados uns 70 anos, colori-a através da IA:

FOTO 5 – A montagem que fiz aos 15 anos de idade,  com recorte de revista com Julie London que colei na minha fotografia (tempo das fotos em preto e branco), e à direita o trabalho feito em 2026 pela IA que deu cores e nitidez à fotografia que tirei há quase 70 anos.  0BSERVE a coincidência de que na fotografia que abre este texto, com Julie London na capa da revista LIFE, ela usa o mesmo vestido da foto acima.

No Natal de 1959, meu saudoso amigo Joãozinho (João Vargas d'Oliveira Júnior) tocou a campainha de minha casa e entrou sorridente. Trazia para mim e minha irmã Ivone um disco que eu nem sabia existir: era o Volume 2 de “Julie is her Name”, uma preciosidade! Que enorme surpresa! Joãozinho sabia que eu tinha o primeiro volume e que desconhecia a existência do segundo volume recém-lançado.  

 

FOTO 6 – A capa de “Julie is her name Volume 2”. Joãozinho escreveu uma dedicatória sobre a capa de plástico. Com a passagem das décadas, a tinta da caneta esferográfica desapareceu, porém o vestígio deixado pela pressão da caneta sobre a superfície do plástico ainda pode ser lido inclinando-se a capa em relação à claridade.

 

FOTO 7 – Joãozinho e Francisco Souto Neto adolescentes.

 

Em 1960 meu irmão Olímpio “abandonou o ninho” da nossa casa paterna e mudou-se para a capital de São Paulo. Ele estava com 26 anos e era ainda solteiro. Ele era realmente um artista: fazia desenhos que vendia para as fábricas de estamparia de Campinas e começou a atuar em teatro. Naquele começo dos anos 60 ele já contracenava com atores que nos anos seguintes tornaram-se famosos através de novelas da Rede Globo.


FOTO 8 – Meu irmão Olímpio Souto em 1965.

Uma noite, quando estava indo para a pensão onde morava, ao passar em frente ao Hotel Jaraguá, viu que uma linda mulher saía dali para embarcar no carro que a aguardava. Ele de repente percebeu que se tratava de Julie London que estava ali hospedada, pois veio ao Brasil para apresentar-se cantando. Até nas capas de O Cruzeiro e da Manchete ela já tinha aparecido, nas reportagens sobre suas apresentações no Brasil. Ao reconhecê-la, voltou uns passos e pediu-lhe um autógrafo. Mas... onde ele poderia colher seu autógrafo se estava sem nenhum papel à mão? Entretanto, ele havia comprado maços de cigarro que estavam envoltos em “papel de embrulho” (que é como se dizia na época). E ali mesmo Julie London gentilmente e sorrindo deu-lhe um autógrafo, assinando com a caneta-tinteiro do próprio Olímpio. Ele pegou esse autógrafo porque sabia que eu gostaria muito de recebê-lo. 

 

A carta – manuscrita, que era usual à época – em “papel de seda”, poderá ser lida abaixo, em três páginas. Olímpio tinha uma ótima caligrafia. Aqui, vê-se que ele escreveu às pressas, porém, assim mesmo é bem legível e a sua descrição sensível, poética,  interessantíssima.

 

FOTO 10 – A carta de meu irmão Olímpio: 1ª página. 

       
FOTO 11 – A carta de meu irmão Olímpio: 2ª página.


 

            No mesmo ano de 1960, quando morávamos em Ponta Grossa, meus pais viajaram a São Paulo, o que faziam habitualmente para visitar minha avó paterna, a quem chamávamos de Mãe Nina. Eu pedi ao meu Papai que, se possível, fosse a uma importante casa de discos para ver se encontraria algum novo de Julie London. Ele gentilmente lá esteve e trouxe de presente para mim o “About the blues”, que hoje considero o melhor dentre todos os discos da cantora.

  

FOTO 13 – A capa de “About the blues”

 

FOTO 14 – Contracapa de “About the blues”

  

O quarto disco de Julie London que recebi de presente foi do meu amigo Rubens Faria Gonçalves no ano de 1976, quando ele ainda residia em São Paulo. 

 

FOTO 15 – Capa de “The very best of Julie London”


FOTO 16 – Contracapa de “The very best of Julie London”

 

Em 1980 eu reuni os 11 discos long-play (de 33 rpm) que eu tenho e tirei uma fotografia deles reunidos no chão, com a presença do meu chihuahua Quincas Little Poncho (1973-1990)

 

 

Quando foi inventado um novo tipo de discos, os CDs que tornaram ultrapassados os long-plays, todos os antigos discos de Julie London foram relançados, não só os que existiam no Brasil, como também inúmeros outros que foram lançados nos Estados Unidos. No ano de 2025 eu reuni os meus 22 CDs de Julie London em uma única fotografia que se vê abaixo.

 

 
FOTO 18 – Minha coleção de CDs de Julie London

 

Estes são os 22 CD de Julie London que comprei. Note-se que inúmeros dos CD englobam DOIS antigos long-plays de Julie London. Isto significa que os 22 volumes acima englobam mais de 30 antigos discos de Julie London.

 

FOTO 19 – Este é um detalhe da FOTO 19, apenas para mostrar que vários dos seus CDs envolvem dois álbuns de sua discografia.

  

No link abaixo está o disco completo “Julie is her name”, e aqui podem ser ouvidas todas as suas faixas:

 

https://www.youtube.com/watch?v=gCGNYJOrebA&list=PLVnkoLiLMTm5Nc1ODYiFJGiZQkXtEwQFt

 


 

Na Wikipédia pode ser lida em português a biografia de Julie London, que inclui todos os seus filmes realizados em Hollywood, pois ela foi, além de cantora, uma importante e elogiada atriz. Para ler e ver, basta clicar neste link:

https://en.wikipedia.org/wiki/Julie_London

 

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FOTO 20  – Em 2026 em meu quarto onde, por ser espaçoso, mantenho uma sala íntima e também uma mesa de trabalho com o meu computador (este não aparece na foto) segurando o primero disco de Julie London. Guardo todos os seus long-plays e os CDs. À direita, minha cama de cerca de 200 anos..


FOTO 21  – Em 20.6.2026, com o disco comprado pelo meu irmão em 1957, há quase 70 anos.


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sexta-feira, 20 de março de 2026

UM TROPEÇÃO E A QUEDA NA RUA por Francisco Souto Neto em 20.03.2026.


Francisco Souto Neto em 2025.

Francisco Souto Neto em 2026... antes da queda.
 
 

 

UM TROPEÇÃO E UMA QUEDA NA RUA 

por  Francisco Souto Neto 

 

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Preâmbulo

 

NA SEMANA PASSADA, AO ATRAVESSAR UMA RUA, SOFRI TROPEÇÃO E A QUEDA... COMO CONSEQUÊNCIA, TIVE OMBRO E ÚMERO FRATURADOS. ESTOU AGORA CONVALESCENTE COM BRAÇO DIREITO TOTALMENTE IMOBILIZADO. DURANTE 40 DIAS, TEREI QUE DIGITAR NO COMPUTADOR COM UM DEDO DA MÃO ESQUERDA, LETRA POR LETRA, EM DIFÍCIL E LENTA TAREFA. DEPOIS SERÃO MESES E MESES DE FISIOTERAPIA. MAS NÃO FOI SÓ ISSO, POIS TAMBÉM BATI A BOCA NO ASFALTO, PERDI DENTES E TIVE CORTES NO INTERIOR DOS LÁBIOS PROVOCADOS PELAS ARESTAS DOS DENTES FRAGMENTADOS.

 

Histórico da queda

 

Em apenas um segundo, tudo pode se transformar. Esse lapso mínimo, quase imperceptível, é capaz de redesenhar destinos, interromper planos e suspender sonhos. É o instante que separa a rotina tranquila de um turbilhão existencial, o previsível do imprevisível.

Foi na tarde de 11 de março de 2026, após uma consulta rotineira à minha dentista, doutora Ilda Pazinatto — uma profilaxia que cumpro como quem cumpre um ritual de cuidado — que me vi, de súbito, diante dessa ruptura. Caminhava de volta para casa, a mente ocupada com a viagem à Europa que se aproximava, quando, ao atravessar a Avenida Vicente Machado, tropecei. O corpo estendeu-se sobre o asfalto como se o tempo tivesse congelado.

 

A dor aguda no ombro direito denunciava a fratura. O rosto, levado ao solo, encontrou a aspereza do pavimento: os dois dentes incisivos superiores se partiram, e os lábios, feridos por dentro, jorraram sangue em profusão. O vermelho tingia minhas mãos, meu bigode, meu cavanhaque, como se fossem pincelados por uma tinta fresca e cruel.

Incapaz de erguer-me sozinho, clamei por socorro. Dois transeuntes acudiram, sustentando-me com esforço. Um deles, já com o celular em punho, ofereceu chamar uma ambulância. Hesitei um pouco e achei melhor retornar ao consultório de minha dentista, situado no quarteirão ao lado, e dali pedir socorro ao meu amigo Rubens, para só então chamar a ambulância que me levaria ao hospital. Minha dentista e sua secretária Janete levaram-me ao banheiro para que eu lavasse as mãos e o rosto. Meu reflexo no espelho assustou-me pela quantidade de sangue ao redor da boca, como se esta estivesse recoberta por tinta vermelha ainda úmida.

Entre gestos de cuidado enquanto meu amigo Rubens não chegava para levar-me ao pronto-socorro, doutora Ilda suavizou as arestas que restaram próximas à raiz dos dentes quebrados e improvisou uma solução estética colocando duas provisórias próteses dentárias no espaço aberto.

No Vita Batel – o hospital pronto-socorro mais próximo – onde fui atendido prioritariamente, após radiografias e tomografia, veio a confirmação: fratura no úmero. Mais uma vez, como em 2024, quando o ombro esquerdo já havia sofrido semelhante destino, a vida me lembrava da fragilidade dos ossos e da persistência da dor.

 Quando em 2024 – há menos de dois anos – tive fraturado o ombro esquerdo no úmero proximal, publiquei num dos meus blogs temáticos o relato da amarga experiência, cujo texto poderá ser recordado no seguinte link:


https://fsoutone.blogspot.com/2024/08/anatomia-de-uma-queda-ou-parafraseando.html

 

Após o diagnóstico, no caso específico do meu tipo de fratura, é preciso aguardar durante uma semana para buscar-se, através de novos exames, uma resposta à indagação que fustiga a mente de qualquer paciente: “estarei livre de uma cirurgia?”.

Além disso, três dias após o acidente, notei que os cortes ocorridos no interior da boca começaram a inflamar. Temendo que as inflamações pudessem derivar para infecções, acompanhado pelo meu amigo Rubens busquei auxílio no pronto-socorro do Hospital São Vicente, que fica praticamente ao lado de onde resido, e ali fui rapidamente atendido por Dra. Mariana Moscalewsky, a quem eu já conhecia da uma consulta havida há alguns anos. Ela, muito gentil, disse-me espontaneamente que se lembrava de mim. Voltei para casa com a receita de uma pomada composta por antibióticos.

 

Os passos seguintes da convalescença

 

No dia 18 voltei ao Hospital Vita Batel para a primeira consulta com Dr. Vagner Messias Fruehling, o médico ortopedista que acompanhará a minha fratura até solucioná-la. Após atualização de radiografia do ombro, ele deu-me a notícia que eu tanto esperava: a fratura permanece estável e assim, em processo de calcificação, se ela mantiver-se nos próximos 45 dias, provavelmente será desnecessária a temida cirurgia corretiva. Didático e atencioso, orientou-me quanto aos cuidados para chegarmos com sucesso ao nosso desiderato.

Neste ínterim tenho contado com o apoio incondicional de meu amigo e companheiro Rubens que com incrível paciência e dedicação resolve os problemas que meu braço esquerdo não consegue solucionar sozinho. Por exemplo, dobrar um guardanapo, pendurar e recolher roupa do varal, cortar um tomate ou um peito de frango no prato, amarrar o cordão do sapato ou tênis, vestir uma camisa, calçar as meias, assinar um documento, lavar um talher... Com um braço imobilizado tornamo-nos prisioneiros do próprio corpo.

Um novo passeio à Europa terá que ser novamente adiado. Entretanto não deixo de ficar imaginando o Quartier Latin em Paris, a Nôtre Dame renascida, os verdejantes planaltos alpinos coalhados de flores amarelas sob os picos nevados da Jungfrau na Suíça, as torres da Sagrada Família que se erguem cada vez mais altas em Barcelona, a freira idosa que arrancava de um órgão romano da Igreja de Santo Inácio de Loyola a força de Bach na Tocata e Fuga em Ré Menor, e os fascinantes labirintos de Veneza onde tantas vezes nos perdemos, eu e Rubens, com alegria e deslumbramento. 

Mas há um obstáculo à vista: não há como não lastimar que a esta altura da História, quando já atravessamos mais de uma quarta parte de Século XXI, que o mundo esteja sendo regido por um presidente estadunidense delirante, arrogante, mentiroso, prepotente, desdenhoso e megalomaníaco, que age como um tirano e desequilibrado rei do mundo, que nos trata como fundo de quintal e vem ampliando as guerras, o desespero e a morte de inocentes no planeta, tal como já fez o Primeiro-ministro de Israel contra a população civil da Faixa de Gaza! Viajar à Europa num momento de graves incidentes políticos talvez seja tão ou mais arriscado e triste do que uma queda no asfalto.

Agora resta esperar que o tempo de minha imobilização e da fisioterapia se cumpra. Que o corpo se recomponha, para que possamos retomar os caminhos e os passeios, sem que o espectro da finitude e da guerra que assombra a Europa e o mundo, nos roube também a esperança.

 

Epílogo

 

Em 2024 fraturei o ombro esquerdo; agora em março de 2026 a fratura é no ombro direito...

Em casa, lendo ou assistindo à televisão. Ou ainda, quem sabe, como disse Samuel Beckett: esperando Godot.

 

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