NO SÉCULO XXI O
DESTINO DA FAMOSA TELA DO
VISCONDE DE SOUTO
por Francisco Souto Neto
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Preâmbulo
Antes de tratar sobre o paradeiro do famoso retrato em óleo sobre tela do visconde de Souto, de 1879, parece-me oportuno referir-me, em breve síntese, à importância de meu trisavô como uma das mais influentes personalidades do Segundo Reinado no Brasil, um dos sustentáculos da economia e do desenvolvimento do nosso país ao período do imperador Dom Pedro II.
Logo abaixo, o texto constante da 4ª capa ou
contracapa do livro Visconde de Souto: Ascensão e “Quebra” no Rio de
Janeiro Imperial, da autoria de Francisco Souto Neto e Lúcia Helena
Souto Martini, Editora Prismas, 2017:
“António José Alves Souto nasceu a 28 de março de 1813 na cidade do Porto, Portugal. Veio para o Brasil aos 15 anos e na capital imperial, Rio de Janeiro, tornou-se o primeiro banqueiro particular do país. Sua casa bancária, conhecida como Casa Souto, rivalizava em carteira de depósitos com o Banco do Brasil. Vizinho da Quinta Imperial da Boa Vista, tornou-se amigo do Imperador D. Pedro II. ‘Honrado com a confiança do Imperador, recebi-o em sua casa e toda família imperial com a maior singeleza, sem o espalhafato ridículo dos preparativos burgueses em tais ocasiões’ (Bessa e Meneses, jornal Commercio de Lisboa, 28 de fevereiro de 1880). Por volta de 1850 criou um jardim zoológico em sua chácara, o primeiro do Brasil, importando animais de três continentes. Foi a primeira vez que os brasileiros puderem ver elefantes, leões e ursos.
O visconde de Souto foi fundador da Junta dos Corretores que se transformou na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, fez parte da primeira diretoria da Caixa Econômica e presidiu a Beneficência Portuguesa do Rio de Janeiro. Pelo casamento dos filhos aparentou-se com o conde de Ipanema, marquês de Olinda, visconde de Pirassununga e com o ministro de Estado Eusébio de Queirós. Tornou-se o banqueiro oficial da Casa Imperial do Brasil. Abolicionista, comprava escravos para alforriá-los. Sustentou creches, amparou crianças órfãs e assegurou-lhes a educação. Desenvolveu muitas obras para o progresso do país e associou-se ao barão de Mauá em algumas delas.
No dia 10 de setembro de 1864 ocorreu o inesperado: a Casa Souto quebrou. Essa falência arrastou num turbilhão alguns bancos, cerca de cem empresas no Brasil e duas em Portugal, abalou o país e foi noticiada até nos confins do mundo então conhecido, como na Nova Zelândia e no novíssimo continente da Austrália. ‘Supor naquele tempo que o Souto quebrasse era o mesmo que acreditar na quebra do Pão de Açúcar’, segundo Arthur Azevedo e Raimundo Magalhães Júnior em Contos Ligeiros.
Machado de Assis teve uma certa fixação no poderoso banqueiro e o mencionou várias vezes em livros e artigos em jornais, como em Quincas Borba: ‘Pode cair, tudo pode cair. Eu vi cair o banqueiro Souto, em 1864’. Contam Benedito Ribeiro e Mário Mazzel Guimarães em História dos bancos e do desenvolvimento financeiro do Brasil: ‘...até os papagaios repetiam nas varandas e cozinhas das casas-grandes: ‘O Souto quebrou! O Souto quebrou!’.
Inocentado da quebra de sua própria casa bancária, o visconde de Souto morreu em 1880 respeitado e reverenciado, tal como revelam centenas de autores constantes da bibliografia desta obra que soma 620 livros pesquisados.
Esse livro contém um apêndice que relata a degradação do setor histórico do Cemitério do Catumbi, onde estão inumados o visconde e a viscondessa de Souto, dentre outros grandes nomes da História do Brasil”.
Como
descobri a existência do grande retrato em óleo sobre tela do visconde de Souto
Na infância e juventude, em tempos muito anteriores à internet, o conhecimento se escondia nas páginas pesadas das enciclopédias — Delta Larousse, Barsa, Mirador — verdadeiros monumentos de papel que se alinhavam em estantes imponentes. Cada coleção reunia cerca de quinze a vinte volumes, abrangendo todas as áreas do saber em ordem alfabética, como se fosse um mapa do mundo impresso. Com o passar dos anos, porém, tornavam-se estáticas, envelhecidas diante da velocidade da História, e precisavam ser atualizadas por suplementos anuais. Eram obras caras, quase luxuosas, acessíveis apenas às famílias mais abastadas. Para a maioria das pessoas, restava o caminho das bibliotecas públicas, onde o saber se oferecia como um tesouro coletivo.
Pouco sabíamos, então, sobre a vida de meu trisavô,
o visconde de Souto. Foi apenas ao início da década de 1990 que eu e minha
prima Lúcia Helena Souto Martini começamos a descobrir, já com o auxílio da
nascente internet, que sua trajetória havia sido de grande relevância para a
História do Brasil. Movidos pelo desejo de aprofundar esse legado, começamos a
busca, através da Estante Virtual, de livros que se referissem ao nosso ancestral,
e foi assim que comprei “Bolsa de Valores do Rio de
Janeiro 150 anos: a história de um mercado”, da autoria de Ney Oscar Ribeiro
de Carvalho.
Foi na página 54 desse volume que, pela primeira vez, meus olhos se encontraram com o célebre retrato do visconde de Souto — imagem que, mais do que uma representação, parecia abrir uma janela para o passado e revelar a presença viva de um antepassado que ajudou a construir uma instituição fundamental para o país, a Junta dos Corretores do Rio de Janeiro, atual Bolsa de Valores, da qual foi seu primeiro diretor.
O livro sobre a Bolsa de Valores com as dimensões
de 23 por 29 centímetros tem, portanto, o formato horizontal.
Meu
primeiro encontro com a pintura do visconde de Souto
Durante longos anos, eu e minha prima Lúcia Helena
nos dedicamos à investigação da vida e dos feitos de nosso trisavô, o visconde
de Souto. A primeira viagem conjunta que fizemos ao Rio de Janeiro marcou um
ponto alto dessa busca: havíamos agendado uma visita à presidência da Real e
Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência do Rio de Janeiro – ou,
simplesmente, Beneficência Portuguesa. A instituição hospitalar, fundada em
1840, foi instalada em um majestoso edifício neoclássico, cuja imponência
arquitetônica evoca a solidez das instituições oitocentistas. Ao fundo do
terreno erguia-se o anexo moderno que abrigava o célebre hospital da entidade,
testemunho da continuidade histórica entre tradição e progresso.
Recebidos pela distinta diretora, Srª Isaura
Taveira Barbosa, fomos conduzidos ao salão nobre da presidência. Ao transpormos
a porta francesa, debruada em madeira trabalhada, deparamo-nos com a visão que
justificava nossa peregrinação: o monumental retrato de nosso antepassado. A
tela dominava a parede principal da sala retangular, ladeada por representações
régias de dois monarcas portugueses, compondo um cenário que unia genealogia
familiar e memória nacional. Logo abaixo, uma placa de bronze registrava a
visita do presidente Emílio Garrastazu Médici em 1972 àquele lugar, curiosa justaposição de
temporalidades que fazia dialogar o Brasil da ditadura militar com o Rio de
Janeiro imperial.
O óleo sobre tela, assinado por Augusto Rodrigues Duarte em 1879, um ano antes do falecimento do visconde, guarda a aura de autenticidade: é plausível que o retratado tenha contemplado a obra concluída, seja como modelo presencial, seja por intermédio de uma fotografia. Observamos, contudo, que o quadro sofrera agressões do tempo e da negligência: respingos de tinta branca, fruto de reformas posteriores nas paredes e teto daquele salão, maculavam a superfície da tela, indício de que não fora retirada nem protegida durante a pintura daquele ambiente.
A altura do pé-direito impedia-nos de obter fotografias frontais adequadas. A remoção da tela, de dimensões e peso consideráveis, exigiria esforço físico de dois homens robustos. Felizmente, o escritor Ney Oscar Ribeiro de Carvalho – autor da obra sobre a história da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro – já se incumbira da tarefa de baixar o quadro, apoiando-o em cadeiras para fotografá-lo sem distorções. Foi graças a essa imagem que pude, posteriormente, aplicar recursos de digitalização e eliminar tecnologicamente as manchas, restituindo à fotografia (apenas à fotografia, mas não à tela original) a dignidade estética necessária para figurar na capa da biografia.
Convém registrar ainda a delicadeza da diretora da
Beneficência Portuguesa. Ao final da visita, informamos-lhe que seguiríamos
para a Floresta da Tijuca, a fim de conhecer e fotografar a Capela Mayrink –
pequeno templo erguido em 1850 pelo próprio visconde em sua fazenda, e em seguida iríamos ao Cemitério do Catumbi, onde estão sepultados o visconde e a viscondessa de Souto. Ao ouvir
que recorreríamos a um táxi, a Srª Taveira Barbosa advertiu-nos sobre os riscos
do trajeto, que atravessava áreas de favela, e prontamente ofereceu o carro
institucional, acompanhado de motorista e segurança armado. Surpresos pela
advertência e agradecidos pela gentileza, aceitamos o auxílio. Assim,
protegidos e serenos, percorremos o caminho até a capela, testemunhando não
apenas a obra material de nosso antepassado, mas também a permanência de sua
memória na histórica paisagem carioca.
A falência da Beneficência Portuguesa... e quanto ao quadro do visconde
de Souto?
Da longínqua Curitiba, eu acompanhava com inquietação as notícias sobre o destino da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficência do Rio de Janeiro. O que mais me causava estranheza era a lembrança de minha visita, em 2009, àquela instituição, em companhia de minha prima e coautora. Hoje, já em 2026, ao consultar registros disponíveis na internet, deparo-me com a informação de que “a Beneficência Portuguesa encerrou suas atividades hospitalares e fechou as portas na década de 2000, após longo período de declínio e endividamento; fundada em 1840, teve seu complexo vendido, sendo posteriormente incorporado pela rede privada de hospitais D’Or São Luiz, e o conjunto arquitetônico transformado no hospital Glória D’Or”.
A constatação é pungente: eu e Lúcia Helena estivemos na sede da Beneficência às vésperas de sua falência, sem que disso tivéssemos qualquer consciência. Para nós, aquela venerável instituição seguiria atravessando os séculos, como tantas outras que se perpetuam na memória coletiva. Estávamos, contudo, enganados.
Um parente residente no Rio de Janeiro informou-me, mais tarde, que, com a extinção da Beneficência, os retratos de seus beneméritos — outrora expostos em paredes solenes — dificilmente encontrariam guarida em hospitais privados, o que é compreensível. Essa revelação trouxe à tona reflexões melancólicas: nada, absolutamente nada, parece destinado a existir para sempre. A própria “História Oficial”, com o passar das décadas e dos séculos, vai se dissolvendo no esquecimento. Essa percepção tornou-se ainda mais clara quando escrevemos a biografia Visconde de Souto: Ascensão e ‘Quebra’ no Rio de Janeiro Imperial. Pois até mesmo aqueles que ajudaram a construir a História acabam, paradoxalmente, esquecidos por ela.
A perda institucional se somou a uma intensa dor pessoal. Em abril de 2025, ocorreu o passamento de minha querida prima Lúcia Helena Souto Martini. Juntos havíamos planejado uma nova viagem ao Rio de Janeiro, na esperança de localizar o óleo sobre tela que retrata nosso antepassado. Mas o tempo, implacável, escorreu. E eu, já octogenário e privado da companhia de minha coautora, vi-me emocionalmente fragilizado para prosseguir nessa seara da hereditariedade. Foi então no vazio deixado pela ausência de Lúcia Helena que a própria História pareceu estender-me a mão: um acontecimento imprevisto, surgido no final de 2025, trouxe nova luz ao enigma do suposto desaparecimento do quadro do Visconde.
O deputado federal Ricardo Salles, um primo dentre muitos outros
Entre os inúmeros descendentes do Visconde de Souto, poucos se detiveram sobre a sua biografia ou sobre os desdobramentos da falência da Beneficência Portuguesa. Raríssimos primos, mesmo os de primeiro grau, demonstraram interesse pelo destino das obras. Contudo, um deles — ainda que mais distante no grau de parentesco — revelou singular preocupação com o retrato do visconde: trata-se do ex-ministro de Estado e atual deputado federal Ricardo Salles, recentemente cogitado para disputar a prefeitura da cidade de São Paulo nas próximas eleições municipais.
Assim como eu, Ricardo de Aquino Salles descende do Visconde de Souto (1813–1880) pela linhagem de meu bisavô — e seu tetravô — Francisco José Alves Souto (1847–1890). O nosso entrelaçamento familiar, porém, não se limita a essa vertente: ele se duplica e se aprofunda pela ramificação heráldica de meu tetravô, o alferes João da Costa Gomes Leitão (1805–1879), conhecido como “o velho Leitão de Jacareí” e sem ligação de parentesco com o visconde de Souto. Casado com Dª. Diná Maria da Conceição Leitão, sua filha Francisca Gomes da Conceição Leitão uniu-se em matrimônio a Francisco de Salles Oliveira. Dessa união, por duas diferentes vertentes genealógicas, eu e Ricardo Salles nos encontramos ligados em raízes que se entrecruzam e se reforçam, como que tecendo uma rede de parentesco mais densa do que se poderia imaginar. Todas essas conexões encontram respaldo documental nas bases genealógicas da GeneAll de Portugal.
Em sua busca, Ricardo, com residências em São Paulo e Brasília, deslocou-se até ao Rio de Janeiro e dirigiu-se ao Hospital Glória D’Or, onde descobriu que os quadros outrora pertencentes à Beneficência repousavam em depósito, envoltos em plástico-bolha, como relíquias relegadas ao esquecimento. A mim, que em tempos passados contemplara o retrato do visconde em posição solene, ladeado por efígies régias portuguesas, a visão atual evocou um contraste pungente: aquilo que parecia eterno, sustentado pela dignidade da memória, revelava-se agora vulnerável ao desgaste inexorável do tempo. A tela apresentava perfurações, e a moldura, sinais evidentes de degradação.
Foi então que Ricardo Salles, na qualidade de descendente direto
do retratado, enviou-me um e-mail que, pela simplicidade, carregava o peso da
surpresa e da emoção:
“Caro primo, espero que esta mensagem lhe encontre bem. Escrevo para
lhe fazer uma surpresa que acredito vá gostar do que eu consegui encontrar,
conforme foto anexa. Um abraço, Ricardo.”
Ricardo não se limitou, entretanto, a
localizar a obra. Demonstrando zelo pela preservação da memória familiar e pelo
patrimônio artístico, às suas próprias expensas encaminhou a tela para os
cuidados da empresa Scaglianti e Luchiari Conservação e Restauração de Obras de
Arte, na capital paulista. Os restauradores Fábio Luchiari e Júlia Ferigato
Leão empreenderam um trabalho minucioso e admirável, devolvendo ao retrato sua
dignidade original, como se o Visconde, outrora esquecido em depósito, pudesse
novamente erguer-se com a altivez que lhe era própria. Algumas das fotografias
de “antes” e “depois”, que exponho logo abaixo, testemunham não apenas a
técnica dos restauradores, mas também o triunfo da memória sobre o
esquecimento.
Antes
e depois: a obra (tela e chassis) restaurada
Abaixo estão estampadas algumas das fotografias que
a empresa Scaglianti e Luchiari enviou para Ricardo Salles das etapas da
restauração feita na pintura do retrato do visconde de Souto, do chassis e da
moldura da obra. Essas fotos estão com legendas explicativas.
Epílogo
(OBS.: Espaço reservado à fotografia)
Ricardo Salles, descendente do visconde
de Souto, ao lado da tela de nosso antepassado.
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