sexta-feira, 20 de março de 2026

UM TROPEÇÃO E A QUEDA NA RUA por Francisco Souto Neto em 20.03.2026.


Francisco Souto Neto em 2025.

Francisco Souto Neto em 2026... antes da queda.
 
 

 

UM TROPEÇÃO E UMA QUEDA NA RUA 

por  Francisco Souto Neto 

 

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Preâmbulo

 

NA SEMANA PASSADA, AO ATRAVESSAR UMA RUA, SOFRI TROPEÇÃO E A QUEDA... COMO CONSEQUÊNCIA, TIVE OMBRO E ÚMERO FRATURADOS. ESTOU AGORA CONVALESCENTE COM BRAÇO DIREITO TOTALMENTE IMOBILIZADO. DURANTE 40 DIAS, TEREI QUE DIGITAR NO COMPUTADOR COM UM DEDO DA MÃO ESQUERDA, LETRA POR LETRA, EM DIFÍCIL E LENTA TAREFA. DEPOIS SERÃO MESES E MESES DE FISIOTERAPIA. MAS NÃO FOI SÓ ISSO, POIS TAMBÉM BATI A BOCA NO ASFALTO, PERDI DENTES E TIVE CORTES NO INTERIOR DOS LÁBIOS PROVOCADOS PELAS ARESTAS DOS DENTES FRAGMENTADOS.

 

Histórico da queda

 

Em apenas um segundo, tudo pode se transformar. Esse lapso mínimo, quase imperceptível, é capaz de redesenhar destinos, interromper planos e suspender sonhos. É o instante que separa a rotina tranquila de um turbilhão existencial, o previsível do imprevisível.

Foi na tarde de 11 de março de 2026, após uma consulta rotineira à minha dentista, doutora Ilda Pazinatto — uma profilaxia que cumpro como quem cumpre um ritual de cuidado — que me vi, de súbito, diante dessa ruptura. Caminhava de volta para casa, a mente ocupada com a viagem à Europa que se aproximava, quando, ao atravessar a Avenida Vicente Machado, tropecei. O corpo estendeu-se sobre o asfalto como se o tempo tivesse congelado.

 

A dor aguda no ombro direito denunciava a fratura. O rosto, levado ao solo, encontrou a aspereza do pavimento: os dois dentes incisivos superiores se partiram, e os lábios, feridos por dentro, jorraram sangue em profusão. O vermelho tingia minhas mãos, meu bigode, meu cavanhaque, como se fossem pincelados por uma tinta fresca e cruel.

Incapaz de erguer-me sozinho, clamei por socorro. Dois transeuntes acudiram, sustentando-me com esforço. Um deles, já com o celular em punho, ofereceu chamar uma ambulância. Hesitei um pouco e achei melhor retornar ao consultório de minha dentista, situado no quarteirão ao lado, e dali pedir socorro ao meu amigo Rubens, para só então chamar a ambulância que me levaria ao hospital. Minha dentista e sua secretária Janete levaram-me ao banheiro para que eu lavasse as mãos e o rosto. Meu reflexo no espelho assustou-me pela quantidade de sangue ao redor da boca, como se esta estivesse recoberta por tinta vermelha ainda úmida.

Entre gestos de cuidado enquanto meu amigo Rubens não chegava para levar-me ao pronto-socorro, doutora Ilda suavizou as arestas que restaram próximas à raiz dos dentes quebrados e improvisou uma solução estética colocando duas provisórias próteses dentárias no espaço aberto.

No Vita Batel – o hospital pronto-socorro mais próximo – onde fui atendido prioritariamente, após radiografias e tomografia, veio a confirmação: fratura no úmero. Mais uma vez, como em 2024, quando o ombro esquerdo já havia sofrido semelhante destino, a vida me lembrava da fragilidade dos ossos e da persistência da dor.

 Quando em 2024 – há menos de dois anos – tive fraturado o ombro esquerdo no úmero proximal, publiquei num dos meus blogs temáticos o relato da amarga experiência, cujo texto poderá ser recordado no seguinte link:


https://fsoutone.blogspot.com/2024/08/anatomia-de-uma-queda-ou-parafraseando.html

 

Após o diagnóstico, no caso específico do meu tipo de fratura, é preciso aguardar durante uma semana para buscar-se, através de novos exames, uma resposta à indagação que fustiga a mente de qualquer paciente: “estarei livre de uma cirurgia?”.

Além disso, três dias após o acidente, notei que os cortes ocorridos no interior da boca começaram a inflamar. Temendo que as inflamações pudessem derivar para infecções, acompanhado pelo meu amigo Rubens busquei auxílio no pronto-socorro do Hospital São Vicente, que fica praticamente ao lado de onde resido, onde fui rapidamente atendido por Dra. Mariana Moscalewsky, a quem eu já conhecia da uma consulta havida há alguns anos. Ela, muito gentil, disse-me espontaneamente que se lembrava de mim. Voltei para casa com a receita de uma pomada composta por antibióticos.

 

Os passos seguintes da convalescença

 

No dia 18 voltei ao Hospital Vita Batel para a primeira consulta com Dr. Valdir Messias Fruehling, o médico ortopedista que acompanhará a minha fratura até solucioná-la. Após atualização de radiografia do ombro, ele deu-me a notícia que eu tanto esperava: a fratura permanece estável e assim, em processo de calcificação, se ela mantiver-se nos próximos 30 dias, será desnecessária a temida cirurgia corretiva. Didático e atencioso, orientou-me quanto aos cuidados para chegarmos com sucesso ao nosso desiderato.

Neste ínterim tenho contado com o apoio incondicional de meu amigo e companheiro Rubens que com incrível paciência e dedicação resolve os problemas que meu braço esquerdo não consegue solucionar sozinho. Por exemplo, dobrar um guardanapo, pendurar e recolher roupa do varal, cortar um tomate ou um peito de frango no prato, amarrar o cordão do sapato ou tênis, vestir uma camisa, calçar as meias, assinar um documento, lavar um talher... Com um braço imobilizado tornamo-nos prisioneiros do próprio corpo.

Um novo passeio à Europa terá que ser novamente adiado. Entretanto não deixo de ficar imaginando o Quartier Latin em Paris, a Nôtre Dame renascida, os verdejantes planaltos alpinos coalhados de flores amarelas sob os picos nevados da Jungfrau na Suíça, as torres da Sagrada Família que se erguem cada vez mais altas em Barcelona, a freira idosa que arrancava de um órgão romano da Igreja de Santo Inácio de Loyola a força de Bach na Tocata e Fuga em Ré Menor, e os fascinantes labirintos de Veneza onde tantas vezes nos perdemos, eu e Rubens, com alegria e deslumbramento. 

Mas há um obstáculo à vista: não há como não lastimar que a esta altura da História, quando já atravessamos mais de uma quarta parte de Século XXI, que o mundo esteja sendo regido por um presidente estadunidense delirante, arrogante, mentiroso, prepotente, desdenhoso e megalomaníaco, que age como um tirano e desequilibrado rei do mundo, que nos trata como fundo de quintal e vem ampliando as guerras, o desespero e a morte de inocentes no planeta, tal como já fez o Primeiro-ministro de Israel contra a população civil da Faixa de Gaza! Viajar à Europa num momento de graves incidentes políticos talvez seja tão ou mais arriscado e triste do que uma queda no asfalto.

Agora resta esperar que o tempo de minha imobilização e da fisioterapia se cumpra. Que o corpo se recomponha, para que possamos retomar os caminhos e os passeios, sem que o espectro da finitude e da guerra que assombra a Europa e o mundo, nos roube também a esperança.

 

Epílogo

 

Em 2024 fraturei o ombro esquerdo; agora em março de 2026 a fratura é no ombro direito...

Em casa, lendo ou assistindo à televisão. Ou ainda, quem sabe, como disse Samuel Beckett: esperando Godot.

 

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