ENTRE O DESCASO PÚBLICO E A CIDADANIA ATIVA: A RELEVÂNCIA DA ACGB NA PRESERVAÇÃO DE CURITIBA
por Francisco
Souto Neto.
Calceteiros da ACGB restaurando as calçadas de Curitiba. Foto por Francisco Souto Neto.
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As calçadas de Curitiba, pavimentadas com a tradicional técnica do petit pavé — ou mosaico português —, encantam pela estética em seus primórdios. Contudo, o inevitável passar dos anos impõe-lhes uma severa deterioração: a pressão das raízes arbóreas deforma a superfície, enquanto a perda contínua das pedras calcárias origina buracos que se convertem em autênticas armadilhas para os pedestres. O aspecto mais alarmante desse cenário é a aparente inércia do Poder Executivo Municipal frente ao problema. Paralelamente, a própria população parece ter se habituado a essa topografia urbana acidentada; encarando a degradação das calçadas como um fenômeno natural, os cidadãos abstêm-se de reivindicar melhorias e parecem desconhecer o padrão de conservação de grandes metrópoles europeias.
Em contraposição a essa passividade, testemunhei uma louvável reação ao desalinho de nossas vias. Durante mais de quatro décadas, residi em um edifício situado na Rua Marechal Hermes, esquina com a Rua Mauá, precisamente na confluência entre o Centro Cívico e o Alto da Glória. A principal artéria desta região é a Avenida João Gualberto, via de expressivo dinamismo comercial e bancário. Naquela época, suas calçadas ostentavam uma periculosidade notória, sendo estatisticamente propensas a causar acidentes e fraturas nos transeuntes.
Certo dia, ao me dirigir a uma panificadora na
referida avenida, deparei-me com uma equipe empenhada na restauração do petit
pavé (leia-se “petipavê”). Ao indagar os calceteiros se integravam o quadro
de servidores municipais, surpreendi-me com a resposta: tratava-se de operários
da Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil (ACGB). Esta entidade sem
fins lucrativos, gerida pelo idealista e mecenas Luiz Fernando de Queiroz —
diretor da Editora Bonijuris —, atua com o firme propósito de promover o
bem-estar coletivo, de forma totalmente independente das esferas
governamentais. Além do reparo técnico dos pavimentos, a associação desenvolve
um relevante trabalho de revitalização visual, eliminando pichações em muros,
residências e portas de aço comerciais, transformando inclusive fachadas de
edifícios em verdadeiros murais poéticos. A ACGB faz tudo, absolutamente tudo, gratuitamente.
Impactado pela relevância do projeto, publiquei um
artigo em meados da década passada detalhando a iniciativa, o qual permanece
acessível através do seguinte endereço eletrônico:
https://fsoutone.blogspot.com/2017/04/acgb-vida-urbana-uma-bencao-sobre.html
Para que o leitor possa mensurar a magnitude desse
trabalho filantrópico promovido por Luiz Fernando de Queiroz, apresento abaixo
alguns registros comparativos de "antes e depois":
O decurso do tempo consolidou minha admiração pelo projeto da ACGB e propiciou o início de uma grata amizade com Luiz Fernando de Queiroz, com quem hoje compartilho a honra de pertencer à Academia de Letras José de Alencar. Em 2017, sua editora publicou o nono volume da obra "Vozes do Paraná", de autoria do saudoso jornalista Aroldo Murá, edição na qual tive o privilégio de ser um dos perfilados.
A imagem subsequente retrata Queiroz portando o
referido volume, onde consta meu nome na capa entre os outros dos perfilados na obra. Originalmente prejudicada por um
leve desfoque, a fotografia foi submetida a um processo de restauração por IA (inteligência artificial), resultando na nitidez agora apresentada:
Transpondo-nos agora para o corrente ano de 2026, a
história ganha um novo capítulo.
No mês pretérito, ao deixar as dependências do meu
atual endereço — situado no limite entre o Centro e o Batel —, observei
novamente os calceteiros da ACGB em plena atividade, corrigindo minuciosamente
as imperfeições do pavimento. Foi motivo de profunda satisfação constatar que a
equipe de Queiroz permanece ativa e resoluta, suprindo de forma graciosa as
lacunas deixadas pela omissão da municipalidade e de relapsos proprietários.
Naquela mesma oportunidade, encontrei na portaria do edifício o síndico Valmor Viecinski. Conhecido por seu perfil altruísta e empático, Viecinski já havia oferecido, por iniciativa própria e recursos particulares, o custeio do almoço dos trabalhadores — gesto realizado antes mesmo que eu o contextualizasse sobre a história e o impacto social da ACGB.
Reuni os calceteiros no próprio local de trabalho
para registrar o momento. As fotografias capturadas por mim não apenas foram enviadas a
Luiz Fernando de Queiroz como homenagem, mas também ilustram este artigo,
servindo como testemunho público de que a ACGB mantém-se firme em sua missão de
mecenato urbano em prol de nossa Curitiba.
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