domingo, 15 de março de 2020

CORONAVÍRUS E PANDEMIA... QUEM DIRIA?! - ou TRUMP versus BOLSONARO - por Francisco Souto Neto



 
O novo coronavírus, com aspecto de uma coroa.

 
Comendador Francisco Souto Neto

---------o----------

CORONAVÍRUS E PANDEMIA...
QUEM DIRIA?!
ou
TRUMP versus BOLSONARO

Francisco Souto Neto


Peste Negra, ou Morte Negra, é como ficou conhecida uma das mais devastadoras pandemias da História. Morreram entre 75 a 200 milhões de pessoas na Eurásia. Somente no continente europeu, foi vitimado um-terço da população. O auge da peste ocorreu no século XIV, entre os anos de 1346 e 1353, e ela foi transmitida ao ser humano através das pulgas dos ratos-pretos, porém as pessoas ignoravam que eram os roedores os transmissores da doença.
A peste negra na Idade Média

 A peste na Idade Média em tela de Brueghel.

A peste na Idade Média em tela de Brueghel. 

A peste na Idade Média numa antiga gravura.

Acredita-se que aquela peste bubônica tenha surgido nas planícies áridas da China. Os primeiros registros datam de 1334 na província de Hubei, e foi se espalhando principalmente pela rota da seda, alcançando a Crimeia. No total, a pandemia pode ter reduzido a população mundial que era em torno de 450 milhões de pessoas, para apenas 350–375 milhões em meados daquele século. A população humana não retornou aos níveis pré-peste até o século XVII. Ásia, Europa, África: a Peste Negra espalhou-se pelo mundo e continuou a aparecer de forma intermitente e em pequena escala pela Europa até praticamente desaparecer do continente no começo do século XIX. Os sintomas da Peste Negra (que era uma peste bubônica) incluem inchaço dos gânglios linfáticos, que podem ficar grandes como ovos de galinha, na virilha, na axila ou no pescoço. Eles eram sensíveis e quentes. Até hoje a peste bubônica requer tratamento hospitalar urgente com antibióticos fortes.

Naqueles tempos arcaicos de mentes toscas, as pessoas precisavam de um lenitivo para enfrentar a peste. Sem contar ainda com recursos da ciência, surgiram então os Flagelantes, um movimento religioso místico como reação à peste. 


Gravura da Idade Média: flagelantes ferindo-se ao açoitarem as próprias costas

Afinal, as populações não encontraram outro socorro senão no sobrenatural. Uma das nações mais avançadas do mundo, a República Sereníssima de Veneza, que no século XIV tinha alcançado um requintadíssimo nível na arquitetura e na arte em geral, contava com numerosas equipes de dedicados médicos. Sua base científica era, obviamente, muito primitiva. Por exemplo, eles passaram a usar um uniforme que se completava com uma máscara na qual despontava um “nariz”, uma espécie de bico de pássaro, com uns 30 ou 40 centímetros de comprimento. Esse “nariz” em forma de bico era recheado de flores, porque todos acreditavam que o perfume afastava a peste, mas também porque as flores ajudavam a disfarçar o cheiro da decomposição dos corpos que se empilhavam por toda cidade.

 A máscara e a indumentária de um doutor em Veneza.

Na minha mão, a miniatura em bronze de uma "máscara de doutor" (il Dottore) que comprei em Veneza, onde essas peças são hoje vendidas como obras de arte para decoração.

A pandemia do coronavírus (o COVID-19)

Na semana passada, quando a Itália teve as fronteiras fechadas para evitar a proliferação do coronavírus que, tendo ultrapassado as fronteiras da China, espalha-se rapidamente pelo mundo, não puder deixar de pensar na peste da Idade Média. Na sexta-feira passada, dia 13 de março de 2020, inúmeros outros países europeus seguiram o bom exemplo da Itália e também fecharam as fronteiras. Até a Suíça, o meu país predileto, isolou-se para tentar salvar seus cantões da contaminação do povo pelo novo coronavírus, o COVID-19. Outros países europeus estão buscando proteção atrás das fronteiras bloqueadas.

É claro que o novo coronavírus não tem absolutamente nada em comum com as pestes da Idade Média. São coisas completamente diferentes e, além disso, a peste bubônica do passado foi muito mais letal do que este que é uma família de vírus que causam infecções respiratórias, enquanto a peste bubônica é provocada pela bactéria Yersinia pestis e pode se disseminar pelo contato com pulgas infectadas, conforme mencionei ao início deste artigo. Entretanto, o atual avanço do mal através do mundo, faz-me pensar nos horrores dos povos medievais, tal como vimos numa das obras-primas do cineasta sueco Ingmar Bergman, o filme “O Sétimo Selo”.


 A Morte no filme "O Sétimo Selo", dirigido por Ingmar Bergman.

O encontro de Bolsonaro com Trump na Flórida

Até dia 13 deste corrente março de 2020, parece-me que não tínhamos nos conscientizado da dura realidade. O próprio presidente brasileiro, antes de viajar para os Estados Unidos na semana passada, declarava pela televisão que a epidemia (ainda não estava sendo tratada como pandemia embora já o fosse) não era tão séria como a mídia vinha alardeando, e ele queria fazer crer que, em outras palavras, o novo coronavírus não seria muito mais do que "uma gripezinha". Um dos membros da comitiva, Fábio Waingarten, secretário de Comunicação da Presidência da República, e que aparece em fotos ao lado de Bolsonaro e entre o presidente Trump e o vice-presidente dos Estados Unidos, testou positivo para o coronavírus. Dois outros integrantes da comitiva de Jair Bolsonaro e que viajaram no mesmo avião presidencial, tiveram confirmação no sábado 14 de março, de estarem também contaminados.


  Fábio Waingarten entre Trump e Bolsonaro.

 Fábio Waingarten entre Trump e Bolsonaro.

 Fábio Waingarten (à direita) ao lado de Trump.

É claro que ante tamanha evidência o presidente Bolsonaro mudou o seu discurso, que é o que ele costuma fazer com grande frequência nos mais diversos assuntos ou temas. A propósito, para esse presidente, dizer e desdizer é a coisa mais natural do mundo. Um dos seus filhos também disse, depois desdisse, mais tarde voltou a dizer para depois desdizer verdades e mentiras sobre a saúde do pai.


Bolsonaro diz e desdiz (agora protegendo-se com uma máscara)

De todo esse imbróglio, o Estadão de 13 do corrente esclareceu: “Mesmo com o primeiro resultado do exame de coronavírus tendo dado negativo, o presidente Jair Bolsonaro vai repetir o teste no início da semana que vem. Ele também deverá ficar mais alguns dias em isolamento no Palácio da Alvorada. A medida será necessária pelo tempo que o presidente passou no avião e ao lado do secretário da Comunicação, Fabio Wanjgarten, diagnosticado com a doença nesta quinta-feira (12). O cardiologista Leandro Echenique afirmou que o presidente deverá ficar mais um tempo em isolamento. ‘Ele segue de quarentena até o começo da próxima semana no Palácio da Alvorada. Precisa ficar isolado pelo menos sete dias depois do contato’, disse ele”.

Acrescente-se que o presidente Trump, que afirmava peremptoriamente que não faria exames para detectar contaminação pelo coronavírus, resolveu mudar de ideia. É lógico, porque o contrário disso seria ignorância demasiada.

Impressões de Dione Mara Souto da Rosa e Rubens Faria Gonçalves

Pelo menos todo esse quiproquó serviu para alertar aos brasileiros de que a situação é séria e requer que todos cumpramos os protocolos de procedimentos. O primeiro exemplo em minha família veio de minha sobrinha, a advogada Dione Mara Souto da Rosa, que deveria vir hoje, domingo dia 15 de março, acompanhada da filha e do genro, para assistirmos a uma habitual “sessão de cinema” no nosso home theater. Perguntou-me ela através de e-mail: “Olá, Padrinho. Tudo bem? Você acha que tudo bem mesmo irmos domingo à sua casa? Com toda essa questão da pandemia não sei se é oportuno. Acho que também devemos evitar beijos e toques de mãos. Tenho feito um cumprimento à moda oriental unindo as mãos para dar ‘oi’. O afeto é o mesmo, mas é preciso seguir as prevenções. O que você pensa?”.

Penso que minha sobrinha está agindo conforme a situação requer. Aqui em casa passamos a evitar contatos sociais e locais com aglomeração de pessoas, tais como cinemas, reuniões e situações similares.

Meu amigo Rubens Faria Gonçalves também escreveu hoje e publicou em seu mural do Facebook as seguintes palavras: “Sobre o coronavírus, mesmo que ele possa provocar apenas uma gripezinha de fácil cura para os mais jovens, estes também correm o risco de ser propagadores do vírus e, assim, contaminar um idoso ou qualquer outra pessoa mais vulnerável, provocando consequências muito sérias e, em certos casos, até mesmo a morte. Portanto, é responsabilidade e obrigação de TODOS seguir as recomendações básicas divulgadas pelas autoridades médicas e outras credenciadas em higiene e saneamento, seja para não adoecer seriamente, seja para não se tornar um propagador do vírus. Mas SEM PÂNICO. Pânico só irá atrapalhar a administração e resolução do problema tanto no plano individual quanto coletivamente.”.

O fato é que o mundo acaba de mudar radicalmente. Vivemos um novo tempo de novos perigos, responsabilidades e ações. Cabe-nos, por ora, estarmos atentos às recomendações básicas que nos estão sendo apresentadas pelas autoridades sanitárias... e, ainda assim, irmos navegando por caminhos ameaçadores e imprevisíveis.

O tempora! O mores!

-o-



P.S.

Os nefastos acontecimentos com a saúde pública mundial ampliam-se com a vertiginosa velocidade de uma grande avalanche. A cada dia muda a face do planeta e impõe-se uma nova ordem mundial que nenhum cidadão pode ignorar... Nenhum cidadão, muito menos um presidente da República. Por isso, vejo-me compelido neste dia 17 de março de 2020 a acrescentar este post scriptum ao meu artigo. Abaixo, a transcrição de notícias de ontem no Estadão:

ORIENTADO A FICAR EM ISOLAMENTO, BOLSONARO CUMPRIMENTA APOIADORES EM MANIFESTAÇÃO (O Estadão).

“Brasília - Orientado a ficar em isolamento até refazer testes para o coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro passou de carro ao lado de manifestantes no ato pró-governo deste domingo, na Esplanada dos Ministérios e, na volta, foi ao encontro de apoiadores no Palácio do Planalto.
Ele cumprimentou com a mão e tirou selfies com manifestantes que se aglomeraram em uma grade de proteção diante do Palácio do Planalto. Os apoiadores de Bolsonaro gritavam contra o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, pediram o fechamento do Congresso Nacional e apoio à ditadura.
Na sede do governo, Bolsonaro desceu a rampa para cumprimentar os manifestantes. A participação dele no ato foi transmitida desde o início pelo Facebook.
Os manifestantes gritavam "Fora Maia" e um deles chegou a pedir que o presidente fechasse o Congresso Nacional. "Estamos juntos, presidente, fecha o Congresso", gritou um apoiador.
"Não é um movimento contra nada, é a favor do Brasil", disse Bolsonaro para câmera do celular. "Juntos podemos mudar o Brasil. Acredito nessa terra maravilhosa que Deus me deu", continuou.
No início, Bolsonaro acenou para os manifestantes do alto da rampa do Planalto. Em seguida, desceu e se aproximou. Primeiro, manteve distância, mas em seguida se aproximou e passou a tocar os manifestantes com a mão. Ele ainda pegava o celular das pessoas para fazer selfies. Em alguns momentos, chegou a colar o rosto ao de apoiadores para fazer fotos”.

 Irresponsabilidade

  Irresponsabilidade

  Irresponsabilidade

 Irresponsabilidade

Além de todas essas afrontas e desprezo às orientações do seu próprio governo, os jornais noticiaram ontem: “Sobe para 15 número de pessoas [da comitiva presidencial durante o vôo, na semana passada, dos Estados Unidos ao Brasil] que encontraram Bolsonaro e estão com o novo coronavírus”.

O próprio presidente corre ainda o risco de contaminar-se e, pior, de estimular a contaminação ao declarar que o coronavírus não é tão perigoso quanto propaga a mídia. Nunca se viu tamanha irresponsabilidade. Que diferença das atitudes tomadas pelos chefes de governo ao redor do mundo inteiro nesta nefasta pandemia. 

Devo ainda acrescentar que manifestações pedindo a queda dos demais Poderes da República (Legislativo e Judiciário) e incitação à ditadura são crimes de lesa-pátria. Ao que parece ninguém sabe disso, nem mesmo o próprio presidente.
-o-

sábado, 29 de fevereiro de 2020

DIA MUNDIAL DAS DOENÇAS RARAS - LEUCODISTROFIAS - Lembrando-me de minha saudosa amiga Iza de Carvalho Lima - Por Francisco Souto Neto.

 
Cartaz sobre doenças raras:
UM MUNDO SEM LEUCODISTROFIAS.

 
Comendador Francisco Souto Neto

---------o----------

LEUCODISTROFIAS NO BRASIL E UM PENSAMENTO NA SAUDOSA AMIGA IZA DE CARVALHO LIMA
Francisco Souto Neto

Nos idos das décadas de 40 e 50, cidade de Ponta Grossa, meus pais tiveram amigos notáveis. Um desses casais foi Olavo Alberto de Carvalho e Aline de Carvalho, que tinham dois filhos: Alberto Olavo de Carvalho – o Tim – e Iza de Carvalho (mais tarde Lima pelo casamento).

Várias vezes Dr. Olavo (ele era cirurgião dentista e um dos empresários mais bem sucedidos da cidade) quando ia encontrar-se com meu pai em minha casa, levava o filho Tim. Embora tivéssemos mais ou menos a mesma idade, nunca aprofundamos amizade; ambos éramos meio caladões. Talvez fôssemos tímidos. Quando Dona Aline visitava-nos para os bate-papos com minha mãe, às vezes levava consigo a Iza, cinco anos mais jovem que eu. Mais ou menos lá por 1957, quando morávamos num belo e espaçoso casarão na Rua Augusto Ribas nº 571, entre a XV de Novembro e a Marechal Deodoro, eu estava com 14 para 15 anos e Iza teria uns 10 anos. Curiosamente – por causa da diferença de idade – entre nós foi se formando uma amizade. A menina me parecia muito vivaz, interessada pelo mundo à sua volta. Sentia interesse pelos objetos de arte da minha casa, pelos livros da nossa biblioteca, perguntava sobre assuntos diversos, como cinema e música, e eu me divertia respondendo-lhe e explicando. Ela também se interessava pelos assuntos entre as nossas mães e examinava com admiração os bordados que minha mãe fazia em lençóis e fronhas, de flores e folhas, com linhas de tons ricos e brilhantes.

A menina Iza aos 12 ou 13 anos, segurando a Sweet

Tirei a foto acima no quintal da minha casa, com Iza segurando a minha cachorrinha fox chamada Sweet. Na gaiola que se vê à direita apoiada na coluna de um telhadinho sobre o tanque, vê-se a silhueta do nosso papagaio Louro.

Iza em minha casa, por volta de 1964 ou 1965.

 
Iza por volta de 1964 ou 1965, adolescente, posando ao lado de um retrato que fiz em bico-de-pena de La Fontaine.

As duas fotos acima são de 1964 ou 1965, quando meu pai já havia falecido e eu e minha mãe passamos a morar na Rua Paula Xavier, quase esquina da Dr. Colares, a uns 50 metros de distância de onde residia a família de Dr. Olavo.

E os anos passaram muito depressa. Iza casou-se com Sérgio Lima. O casal teve três bonitos filhos. Em setembro de 1974 nasceram os gêmeos Rodrigo e Rogério. Alguns anos depois, nasceu o caçula Olavinho.

Iza ladeada pelos gêmeos Rodrigo e Rogério, segurando o caçula Olavo.

 
Sérgio Lima com o filho Olavinho.

 
Iza brincando com Olavinho após a refeição.

Quando Olavinho estava com a idade de 5 anos, sofreu uma convulsão na escola. Começava aí uma batalha dos pais, apoiados por médicos, para descobrirem as causas do problema surgido. Foi então que Iza descobriu ser portadora de uma mutação genética, a doença rara conhecida como leucodistrofia, que acabou por levar Olavinho aos 11 anos.

Por volta de 2010, Iza com um dos gêmeos e duas amigas.

A última vez que me encontrei pessoalmente com  Iza foi em 2014, quando o marido e o filho Rodrigo a trouxeram para tratamento em um hospital de Curitiba.

Iza faleceu em janeiro deste ano de 2020, causando profunda consternação entre seus familiares e amigos. Desde o ano passado ela, o marido e os filhos gêmeos tinham iniciado uma campanha em nível nacional, para tornar conhecidas as leucodistrofias, para facilitar a compreensão e o tratamento por parte das famílias que são surpreendidas por essa doença rara em seus filhos, e começaram a obter recursos que reverterão num site que sintetizará tudo o que vem sendo feito em prol dos portadores da doença, estudos científicos e os avanços da ciência nesse sentido, e muitos outros assuntos de grande importância.

Iza no fim do ano de 2019, ao início da campanha.

Os gêmeos Rodrigo e Rogério lançando a campanha em 2019.

O texto da autoria de Rodrigo C. A. Lima, que reproduzirei abaixo, foi escrito com rara sensibilidade e é muito tocante, porque esclarece o que é essa doença rara, descreve todos os passos percorridos pela família ao redor de Olavinho e é um convite à empatia e à solidariedade por todos os portadores da doença. Suas palavras são a abertura de um caminho com finalidades altamente humanitárias e um estímulo a todas as famílias que sofrem situações semelhantes, e ainda abrem a possibilidade de que todos nós possamos dar uma pequena colaboração para que alcancem o seu desiderato.

O tocante texto de Rodrigo C. A. Lima é o seguinte, que peço aos amigos que leiam e ajudem a divulgar:


- o -

O DIA MUNDIAL DAS DOENÇAS RARAS é comemorado anualmente no último dia do mês de fevereiro.

- o -

O CARTAZ DE JOÃO CARLOS BONAT EM HOMENAGEM A ANITA ZIPPIN por Francisco Souto Neto.



O cartaz de João Carlos Bonat


 
Comendador Francisco Souto Neto

---------o----------


O CARTAZ DE JOÃO CARLOS BONAT EM HOMENAGEM A ANITA ZIPPIN

Francisco Souto Neto


Antes de referir-me ao cartaz do amigo João Carlos Bonat que está encimando esta crônica, devo fazer uma breve introdução sobre minha ausência deste blog durante muitos meses.

Política e hipertensão

Minha fonte literária secara após um incêndio psicológico. No ano passado foi-se a vontade de escrever. Em 2019 apenas escrevinhei ligeiramente para não deixar sucumbir meu blog. Ao referir-me em março daquele ano ao reinício das atividades da Academia de Letras José de Alencar - ALJA, da qual sou membro e conselheiro, tudo o que fiz foi transcrever, ipsis litteris, as boas palavras que nossa colega Vera Rauta usou no relato da reunião e que publicou em seu mural do Facebook. Depois disso, meu blog moveu-se tropegamente em dezembro para apenas relatar os nomes, nada mais, dos novos membros da ALJA: os novos efetivos, os titulares e os correspondentes. E qual o motivo da minha tamanha inércia?

Explico: em meados do segundo semestre do ano passado sofri um estranho episódio de hipertensão arterial. Meu aparelho de pressão mostrou-me um índice altíssimo. Acreditei que o aparelho estivesse desregulado e fui à farmácia tirar a dúvida. A farmacêutica aferiu a pressão, arregalou os olhos e recomendou dirigir-me imediatamente a um pronto socorro. Assustado, lá fui eu. E o médico de plantão, apreensivo, fez-me internar para tomar medicamentos e soro até baixar a pressão para níveis aceitáveis, assim afastando o risco iminente de um AVC.

Meses depois o episódio de hipertensão repetiu-se. O médico, para atender à minha indagação pelos motivos do desagradável e perigoso fenômeno, tentou encontrar respostas e firmou-se mais nitidamente na hipótese de eu estar atravessando um período de estresse. Perguntou-me sobre minha situação financeira, sobre problemas familiares, sobre abismos existenciais, porém ele nada mais encontrou do que um lago sereno de águas plácidas, tranquilas, pois assim são o meu cotidiano e a minha vida. Entretanto “tropecei” ao comentar a minha indignação e repulsa num crescendo diário ao atual governo federal. A meu ver o atual presidente mostra-se imaturo, mentiroso, arrogante e grotesco, cercado de ministros e secretários que se espelham nele em sua maioria. Como consequência, ouvir diariamente as suas falas desatinadas e o descompasso ministerial causam-me muito profunda irritação... e daí a origem dos meus males.

Se meu entusiasmo pelas letras ficou tolhido, tenho procurado desembrutecer o espírito através da observação da arte, do bom cinema e da leitura, que são os caminhos mais indicados para que minha hipertensão alcance o necessário equilíbrio.  

E foi assim que ao observar o cartaz ao qual me referi no primeiro parágrafo desta crônica, veio-o a vontade de escrever sobre o mesmo.

O cartaz

O cartaz de João Carlos Bonat

O cartaz ao qual me referi no primeiro parágrafo deste artigo teve origem num comunicado que Anita Zippin – que preside a Academia de Letras José de Alencar – encaminhou a todos nós, seus colegas acadêmicos, e aos amigos mais chegados. Anita contou-nos que resolveu praticar sistematicamente natação há 15 anos, quando morava no bairro do Cabral. Começou nadando – sempre de costas – 500 metros por aula. Foi aumentando seu exercício até que passou a nadar um quilômetro. Mas não parou aí. Depois de algum tempo, já nadava nada menos do que 3000 metros a cada vez.

Anita Zippin ao visitar-me em 1998

Há três anos Anita Zippin mudou-se para o Bigorrilho e então procurou pela Sociedade Thalia, onde nadara na sua infância e adolescência, e encantou-se com a piscina de 25 metros. Ela fez as contas: a cada ida e volta na piscina, ela nadaria 50 metros. Se fizesse isso 80 vezes, alcançaria a cifra de quatro quilômetros nadados por dia. E foi assim que em apenas três anos exercitando-se na Sociedade Thalia, ela nadou exatos 2005 quilômetros.

João Carlos Bonat, nosso colega da ALJA, para homenagear esse feito de Anita Zippin, criou um cartaz que denominou “2005 – ODISSEIA NA PISCINA”.

João Carlos Bonat ao visitar-me em 2019, ao lado do meu computador.

O bom gosto do cartaz evidencia-se pelo emprego da ornamentação ou “moldura” com duas ordens de frisas gregas, e por ser quase monocromático num marrom – a cor preferida para os antigos vasos gregos com cenas mitológicas – e também pelo tipo (ou fonte) de letras utilizadas, que no alfabeto latino evoca o grego. Tudo isso encimado pela estação espacial do filme de Kubrick “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, que é ao mesmo tempo uma alusão à arte cinematográfica, algo importantíssimo na vida de Anita Zippin, que é uma cinéfila de primeira linha. E a parte da mitologia que diz respeito à obra de Homero, “A Odisseia”, é na verdade, no cartaz de João Carlos, uma vinculação às várias divindades gregas ligadas à água: Dóris, Ceto, Euríbia, Tétis, as nereidas (dentre as quais Anfitrite), as ninfas Oceânidas e as sereias, dentre estas Parténope, Leucósia e Lígia. A meu ver, Anita surge obviamente como parte dessas divindades das águas, por ter nadado milhares de quilômetros na piscina do bairro do Cabral, desde muito antes desses atuais 2005 no Clube Sociedade Thalia.

Milhares de quilômetros nadados

Ora, façamos uma conta: a distância entre o Monte Caburaí (RR)  – onde nasce o Rio Ailã – que é o ponto extremo norte do Brasil, ao Arroio Chuí (RS) no extremo sul, é de exatos 4.394 quilômetros. Assim, Anita precisará nadar apenas mais uns três anos e meio para alcançar o equivalente à distância entre o norte e o sul do Brasil. E isto sem contar, como já disse, outros milhares de quilômetros nadados quando ainda residia no Cabral.

Não deixa de ser impressionante. Portanto, meus cumprimentos ao colega João Carlos Bonat – seus trabalhos gráficos e artísticos são sempre esplêndidos – que muito compreensivelmente sentiu-se inspirado para criar o belo cartaz, e meus parabéns a Anita Zippin pelo vigor e determinação que, com certeza, deixaria Esther Williams impressionada – quem for um bom cinéfilo compreenderá o que estou querendo dizer.

E com isso, no limiar do mês de fevereiro, distraio-me pela primeira vez neste ano das minhas preocupações com o meu país, com esta guinada em direção à arte, às letras e à cultura.

Anita Zippin atualmente

---------o----------

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

OS 80 ANOS DA ACADEMIA DE LETRAS JOSÉ DE ALENCAR - SESSÃO SOLENE e NOVOS MEMBROS. Por Francisco Souto Neto.

OS 80 ANOS DA ACADEMIA DE LETRAS JOSÉ DE ALENCAR
em 27 de novembro de 2019

SESSÃO MAGNA e NOVOS MEMBROS

O convite para a sessão solene dos 80 anos da Academia de Letras José de Alencar.

Por Francisco Souto Neto

---------o----------


OS 80 ANOS DA ACADEMIA DE LETRAS JOSÉ DE ALENCAR

SESSÃO MAGNA e NOVOS MEMBROS

Francisco Souto Neto


A sessão solene da Academia de Letras José de Alencar – ALJA – que comemorou os 80 anos de fundação da instituição, foi realizada em 27 de novembro de 2019, no salão nobre do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, na presença de muitas autoridades e dezenas de convidados.

Presidida pela advogada e jornalista Anita Zippin, a ALJA, na oportunidade, efetivou o ingresso de associados nas categorias patronímicos (ou titulares), efetivos e correspondentes.

Na categoria de sócios patronímicos foram empossados quatro membros que já eram sócios efetivos, mas que agora foram elevados a titulares, passando a ocupar cadeiras patronímicas. Foram eles: ALBERTO VELLOZO MACHADO (que passou a ocupar a cadeira nº 38, de Nestor de Castro), PAULO ROGÉRIO M. DE BITTENCOURT (passou a ocupar a cadeira nº 11, de Miguel Couto), RUBENS FARIA GONÇALVES (passou a ocupar a cadeira nº 2, de Cruz e Sousa),  e VERA LÚCIA RAUTA (passou a ocupar a cadeira nº 5, de Júlia da Costa).

Na qualidade de sócios efetivos, ingressaram os novos ELISA MORAIS MONTICELLI, RAFAELA MENEGOTI TASCA, RENAN DOS SANTOS e TITO LÍVIO FERREIRA VIEIRA.

Ingressaram também, como sócios correspondentes, ANA MARIA RANGEL DIHL (Rio Grande do Sul), ENGELBERT SCHLÖGEL (Áustria) e MARIA JÚLIA PACHECO (Portugal).

O confrade João Carlos Cascaes, da diretoria da ALJA, é quem faz as filmagens das reuniões da Academia para colocá-los no blog da referida instituição, donde copiei o discurso de Rubens Faria Gonçalves, que poderá ser ouvido no seguinte endereço:


Como na gravação acima faltou a parte inicial do discurso de Rubens Faria Gonçalves, reproduzo abaixo o texto da referida fala:


DISCURSO DE POSSE – RUBENS FARIA GONÇALVES

Boa noite senhoras e senhores! Quando meus amigos e colegas acadêmicos Anita Zippin e Francisco Souto Neto cobriram meu torso com esta toga de cordão dourado, a mim foi conferida a honra de tornar-me o atual ocupante da cadeira n° 2 desta prestigiada Academia de Letras José de Alencar, cadeira esta anteriormente ocupada por Leopoldo Scherner, ilustre bacharel em Direito, poeta, prosador e, acima de tudo, saudoso professor nascido em São José dos Pinhais em 1919 e falecido em janeiro de 2011, uma vida dedicada aos livros e ao ensino do idioma português. Para mim, é uma grande honra tornar-me, hoje, seu sucessor na cadeira cujo patrono é o nosso poeta rebelde Cruz e Sousa, o introdutor do simbolismo no Brasil.
Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, no dia 24 de novembro de 1861, no porão de um solar patriarcal provinciano típico do Segundo Império, filho de Carolina e Guilherme da Cruz, negros alforriados. Dos pais, o pequeno João herdou a cor da pele e a Cruz do nome. Ficou sendo João da Cruz. O Sousa viria depois.
Desde cedo nosso Joãozinho da Cruz contou com a simpatia e a proteção do seu senhor branco, o marechal Guilherme Xavier de Sousa, que lhe garantiu uma educação de acordo com o padrão senhorial da época. Anos mais tarde, num gesto de reconhecimento e gratidão, o poeta acrescentaria ao seu nome o Sousa do nome do seu benfeitor, passando a assinar João da Cruz e Sousa, ou simplesmente Cruz e Sousa. Até seus 14 anos, estudou no Ateneu Provincial Catarinense, recebendo uma formação humanística, com aulas de latim, grego, literatura francesa e inglesa, além de matemática e ciências naturais. Sua notável inteligência, a vivacidade intelectual, os pendores para poética e declamatória, associados ao ótimo desempenho escolar, trouxeram-lhe os primeiros elogios ― elogios estes que não eram suficientes para apagar o estigma da raça.
Para manter-se, além de trabalhar como caixeiro, o jovem Cruz e Sousa ministrava aulas particulares para filhos de famílias abastadas, o que ampliou suas relações sociais e lhe trouxe novas amizades, mas, em contrapartida, ficou mais exposto às reações preconceituosas da sociedade provinciana, o que, de certo modo, em 1881, levou-o a aceitar o convite para viajar com a Companhia Dramática Julieta dos Santos, atuando como ponto. (“Ponto” é o nome que se dava ao auxiliar de teatro que, oculto do público, recordava aos atores as falas dos personagens.) Empregado pela mencionada companhia teatral, Cruz e Sousa pôde sair do ambiente acanhado em que vivia e conhecer outras regiões do Império, participando de campanhas abolicionistas e divulgando seus poemas.
Em 1890 estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde se aproximou do então chamado Grupo dos Novos, exercendo forte liderança e dando contornos brasileiros a uma nova poética inspirada em propostas do simbolismo europeu. Em fevereiro de 1893, Magalhães & Cia Editores lançou os livros “Missal”, de prosa poética, e “Broquéis”, os dois únicos livros “solo” que Cruz e Sousa publicou em vida. Obras inovadoras, precursoras do simbolismo no Brasil, provocaram fortes críticas por parte daqueles que, como padrão literário, exigiam fidelidade realística e nacionalismo, em oposição à representação subjetiva da realidade e a uma linguagem que a classe intelectual dominante tolamente tachava de incompreensível.
Ainda em 1893, Cruz e Sousa casou-se com Gavinda Gonçalves, negra. Do casamento, nasceram quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose, e a própria Gavinda começou a sofrer sérios distúrbios mentais. Por fim, em 1898, em Curral Novo, Minas Gerais, Cruz e Sousa faleceu também de tuberculose. Seu corpo foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, Rio de Janeiro. Em 2007 teve seus restos mortais transferidos para o Palácio Cruz e Sousa, antigo Palácio do Governo em Florianópolis.
Morto aos 38 anos, continua vivo nos seus versos, nos quais persistem a musicalidade, o sensualismo, o espiritualismo, a exteriorização dos mais íntimos sentimentos e a dor dissolvida em líricas imagens devotadas à Arte Pura, quando a expressão simbólica da emoção torna-se o principal instrumento do fazer literário. Em Lages, foi criado o Clube Cruz e Sousa para preservar a memória do poeta e promover a cultura negra. Em 1998 o cineasta Sílvio Back lançou um filme denominado “Cruz e Sousa – o Poeta do Desterro”. Na Academia Catarinense de Letras, Cruz e Sousa é o patrono da Cadeira 15. E aqui, em nossa prestigiada Academia de Letras José de Alencar, ele é o patrono da cadeira 2, a qual eu tenho o imenso orgulho de ocupar a partir de hoje.
Para fechar minha fala, é da pena de Cruz e Sousa, em seu notável poema “Arte”, que retiro os versos que leio a seguir:
Enche de estranhas vibrações sonoras
a tua Estrofe, majestosamente...
            Põe nela todo o incêndio das auroras
            para torná-la emocional e ardente.

            Derrama luz e cânticos e poemas
            no verso e torna-o musical e doce
            como se o coração, nessas supremas
            Estrofes, puro e diluído fosse.

Muito obrigado!


Muitas foram as fotografias tiradas de todos os momentos da cerimônia, por profissionais e pelos convidados. Entretanto, adiante reproduzirei apenas as quinze fotografias que foram feitas com minha câmera fotográfica, registrando apenas alguns momentos da comemoração dos 80 anos da Academia de Letras José de Alencar:

 Francisco Souto Neto e Rubens Faria Gonçalves. À direita, Tito Lívio Ferreira Vieira.

 Noives Araldi, Tito Lívio Ferreira Vieira, Francisco Souto Neto, Dione Mara Souto da Rosa, Rubens Faria Gonçalves, Isabelle Aguilar.

Os quatro membros efetivos da ALJA que assumiram cadeiras patronímicas: Vera Rauta, Alberto Vellozo Machado, Paulo Rogério M. de Bittencourt e Rubens Faria Gonçalves. Sentados: Anita Zippin (presidenta) e Joatan  Carvalho (diretor).

 Na mesa de honra: Joatan Carvalho (diretor), Arioswaldo Trancoso Cruz (vice-presidente e presidente de honra), o presidente do IHGPR e a acadêmica Luislinda de Valois.

O discurso de Rubens Faria Gonçalves.

O discurso de Rubens Faria Gonçalves.

O discurso de Rubens Faria Gonçalves.

O discurso de Rubens Faria Gonçalves. Na mesa de honra: Anita Zippin e Joatan Carvalho.

Rubens Faria Gonçalves recebe sua diplomação das mãos de Luislinda de Valois.

O coquetel.

O coquetel.

O bolo comemorativo aos 80 anos da ALJA. A partir da esquerda: Celso Portugal, Arioswaldo Trancoso Cruz, Anita Zippin, Rubens Faria Gonçalves e um funcionário do Tribunal de Justiça.

Hamilton Bonat e Anita Zippin.

Dione Mara Souto da Rosa, Isabelle Aguilar, Guilherme Confortin e Rubens Faria Gonçalves.


O diploma de Rubens como sócio titular ocupante da Cadeira Patronímica nº 2, de Cruz e Sousa.

---------o----------